Vila Velha completa 45 anos de história

Cena de Eles Não Usam Bleque Tai, com direção de João Augusto em adaptação do texto de Gianfrancesco. Foto: Acervo TVV
Fonte: Jornal A Tarde
Caetano, Bethânia, Gal e Gil nem sonhavam em se tornar quem são quando inauguraram o palco do Teatro Vila Velha, com o antológico show Nós, Por Exemplo. Isso foi em 1964, ano emblemático não só para o Brasil como para a história das artes cênicas baianas, que assistia ao nascer de um dos seus mais simbólicos espaços culturais.
Celebrar os 45 anos de uma casa envolvida, desde o seu começo, com o fazer teatro coletivamente tem um quê a mais. O Vila Velha, dono de uma trajetória construída por abnegadas gerações de profissionais, faz aniversário em 31 de julho testemunhando a velha máxima de que o passado explica o presente.
Nesse dia, às 20 horas, dois eventos marcarão a data: a abertura de exposição fotográfica e documental sobre a trajetória do TVV e a leitura dramática de Stopem Stopem com os seis grupos residentes da casa, sob direção geral do Lázaro Ramos, ator revelado no Vila Velha.
Antes, nesta sexta-feira, a partir da zero hora, também dentro das comemorações do TVV, o despojado projeto Meia Noite Se Improvisa retorna para uma edição especial. Na ocasião, o palco estará aberto ao público, que poderá participar tendo inscrito via e-mail (meianoiteseimprovisa@ teatrovilavelha.com.br).
“O Vila Velha é um teatro ímpar. Nasceu com o papel de ser uma instituição de utilidade pública e se preserva nesse propósito nesses seus 45 anos de vida, cheios de altos e baixos, mas sempre resistente”, avalia Fábio Espírito Santo, diretor do TVV.
Qualidade – A preocupação com a formação e qualidade artísticas – que o faz um teatro modelo de inovação – tem na figura do diretor e dramaturgo João Augusto (morto em 1979) a semente de tudo. A marca de seu trabalho era bem definida: voltado para a formação de atores e grupos e para espetáculos inovadores e articulados com a cultura popular.
Esse sempre foi o diferencial do TVV em relação a outras casas do gênero no país, na opinião de Espírito. “O que está por trás de tudo isso é muito trabalho, feito em mutirão, com comprometimento com a cultura e o social“.
Chica Carelli, à frente do Bando do Teatro Olodum, tem um envolvimento integral com o TVV desde 1995, ocasião de sua reinauguração. Junto a Márcio Meirelles, então diretor do teatro, ela viu sedimentar o ideal de um espaço de fomento cultural.
“O Vila tem a marca não só da criação e reflexão estética, mas também da discussão sociocultural com a sociedade”, enfatiza Carelli, citando o Bando como um dos pilares de sustentação dessa proposta.
Tudo começou em 1990, quando Marcio e Chica, sob a colaboração do Grupo Cultural Olodum, reuniram em torno de uma linguagem própria e contemporânea um elenco de atores negros. Hoje, com mais de 30 componentes, o Bando já produziu cerca de 20 espetáculos de teatro, além de atuações no cinema e na televisão Ó Paí, Ó!, que se tornou filme de longa-metragem e série televisiva, e Cabaré da RRRRRaça (1997), maior sucesso do grupo nos palcos, imprimiram ao grupo maior projeção. Sonho de Uma Noite de Verão (Prêmio Braskem de melhor espetáculo, 2006) também está entre as produções de destaque, assim como o primeiro espetáculo infanto- juvenil, Áfricas (2007).
A coreógrafa Cristina Castro, responsável pelo grupo Viladança, e, no momento, atuando ao lado de Espírito Santo na coordenação de projetos e programação, considera que o Teatro Vila Velha é uma proposta vitoriosa porque funciona “como uma usina cultural popular, onde a produção não para nunca”.
Como retribuição, diz, o público oferece de presente sua fiel assiduidade e constante interatividade. “Sinto-me muito orgulhosa por estar ajudando a construir essa história”, revela.
Com uma gestão diferenciada que parte “dos interesses de um coletivo“, nas palavras de Cristina Castro, o TVV chega aos seus 45 anos renovado de sua capacidade de aglutinação, como completa Chica Carelli.
A sustentabilidade (artística e financeira), hoje, é o maior desafio do TVV, na opinião de Espírito Santo. Para tanto, o ecletismo e a intensidade em sua programação, diz, foram reafirmadas na sua gestão.
“Posso afirmar seguramente que, do seu porte, é o teatro que mais produz na Bahia. Só para se ter uma ideia, entre janeiro e fevereiro últimos, promovemos 23 oficinas de capacitação.
Outros dados: entre janeiro a junho deste ano, foram 150 dias de atividades, 93 espetáculos, 236 apresentações, 23.318 espectadores e 52 atividades de capacitação artística, conforme dados da direção. “Somos um teatro que produz e se preocupa com a formação artística, com a diversidade e qualidade de sua programação. Somos um modelo único”.


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