Deborah Colker: Projeto social de dança vira realidade
Por Blog Acesso
A coreógrafa e diretora de movimento Deborah Colker é um dos nomes mais fortes e representativos da dança no país e no mundo. Desde 1994, ela dirige a Companhia Deborah Colker, localizada no bairro da Glória, no Rio de Janeiro.
Antes, teve uma forte passagem pelo teatro nacional e trabalhou com nomes de peso da área como Domingos de Oliveira, Ulysses Cruz, Moacyr Góes, Antônio Abujamra, entre outros. Em 2008, ela foi convidada pelo Cirque du Soleil a criar o espetáculo “Ovo”.
Desde que inaugurou sua própria companhia, Deborah já sonhava com uma escola e com um projeto social, mas demorou até encontrar um lugar fixo para poder fazer seus ensaios e ampliar seus trabalho. Somente dez anos depois conseguiu a casa onde está até hoje. É lá que agora funciona o Centro de Movimento, um espaço para pensar e experimentar o movimento, disciplinar e conscientizar o corpo que pensa e dança.
No centro são ministrados cursos de ballet clássico, dança contemporânea, jazz, yoga, hip hop, dança aérea, consciência corporal para atores, pilates, entre outras modalidades. No mesmo espaço funciona o projeto social que Deborah e sua equipe criaram para atender quem não tem condições de pagar os cursos e para descobrir novos talentos.
Estruturado em 2007, o projeto tornou-se realidade um ano depois, com o apoio do Grupo Votorantim. Em seu primeiro ano de atividades, 13 jovens selecionados têm aulas práticas e teóricas todas as manhãs da semana. Eles aprendem não apenas técnicas de dança, mas também a refletir e sentir cada movimento. A ideia é que, no fim do ano, estejam preparados para encarar o mercado de trabalho e, quem sabe, atuar em companhias de peso como a de Deborah Colker.
Confira, a seguir, uma conversa exclusiva com a coreógrafa sobre este novo trabalho.
Blog Acesso – Quando surgiu a ideia de criar o projeto?
Deborah Colker – Essa é uma ideia e uma vontade que eu sempre tive, mas, para falar sobre isso, eu preciso contar um pouco da história de como nasceu minha companhia. Ela existe desde 1994 e, mesmo assim, eu não tinha um lugar fixo para ensaiar. No final de 2004, consegui uma casa no bairro da Glória, onde passou também a existir a minha escola, outro sonho que eu tinha. Lá, eu já garanti vaga para 75 bolsistas, sem ajuda de patrocínio. Hoje, a escola tem 450 alunos. Passei, então, a estudar como fazer para o projeto social acontecer. Eu e uma equipe estruturamos a ideia, colocamos no papel e começamos a correr atrás de patrocínio em 2007, porque eu não tinha como organizar tudo sem dinheiro. O resultado saiu em dezembro do ano passado e no final de janeiro deste ano já estávamos com ele funcionando.
BA – Como foi montar o projeto até chegar ao modelo final?
DC – Eu contei com a ajuda de uma equipe de coordenação da escola formada por cinco pessoas. Sentamos todos juntos para escrever o projeto, como seria o cotidiano dos meninos. Eu não queria ensinar somente a parte prática, isso já tem vários projetos sociais que fazem. A formação que nós damos é para formar um bailarino completo, consciente do seu corpo e de seus movimentos, com bagagem cultural. Também decidi que não ia pegar gente crua, queria participantes já com algum tipo de formação e com talento, claro. Fiz os testes pelo Skype, porque na época estava em Montreal, trabalhando para o Cirque du Soleil. Todos foram escolhidos porque são bons e agora vão pode espalhar por aí uma boa educação, boa formação. Fazemos uma vigília constante para que eles absorvam o máximo e possam continuar trabalhando. Dos 13 alunos, nove são negros. Eu acho isso interessante porque é muito difícil encontrar bailarinos negros, é uma coisa que não se vê muito, principalmente com formação técnica clássica.
BA – Quais foram os critérios para seleção dos alunos?
DC – Como eu já disse, não pegamos ninguém cru. Todos passaram por um teste de aptidão de dança. Esse teste foi feito com pessoas de vários projetos do Rio de Janeiro e pessoas que a gente sabia que estudavam dança e não tinham condições de se aperfeiçoar mais. A maior parte é iniciante. Chega um momento em que eles ainda não estão preparados para entrar numa companhia, precisam amadurecer, mudar de professor, partir para uma formação mais profissional e aí que nós entramos. Todos, agora, já estão em processo de formação adiantada, mas ainda precisam melhorar. Eu fiquei muito feliz porque, quinta-feira, dia 20 de agosto, Guy Darmet (Fundador da Casa da Dança em Lyon) veio conhecer o projeto e ficou apaixonado. Agora ele quer levar todo mundo para se apresentar em Lyon ano que vem. Eu tenho que ver como vou fazer, porque esses alunos já estarão formados, afinal o curso é de um ano. Mas eu vou fazer o possível para que isso aconteça.
Outro critério de seleção é estar regulamente matriculado e frequentando alguma instituição de ensino público, com 70% de média de aproveitamento.
BA – Como é o dia a dia do projeto? O que os alunos aprendem?
DC – Eles têm aula todos os dias da semana, das 8h às 13h. No primeiro horário, são dadas aulas de ballet clássico e dança contemporânea. Depois, no segundo horário, alternam entre aulas teóricas, como história da dança, da arte, anatomia, e práticas como pilates, hip hop. Também já começamos os ensaios para a apresentação do fim do ano. No final deste projeto, em dezembro, eles irão apresentar um espetáculo. Agora começamos, por exemplo, a fazer alguns ensaios abertos para eles já sentirem o contato com o público, se acostumarem à mudança de horário, fazer maquiagem. Fora do horário das aulas, nós também levamos eles para assistir peças de teatro, à exposições, tudo para complementar a formação. É muito bacana.
BA – E como será o espetáculo que eles apresentarão no fim do ano?
DC – O espetáculo tem quatro coreografias, três são do repertório da companhia e a quarta é nova, eu estou criando para eles. Uma se chama “Ostinato”, e trabalha a questão da relação da dança e do movimento com gestos ordinários do cotidiano. Outra se chama “Paixão” e, como o próprio nome já diz, tem a ver com os sentimentos, com emoções intensas e, ao mesmo tempo, um pouco de romantismo. Para a terceira, eu juntei duas coreografias, “Velox” e “Maracanã”, e criei uma nova, de uma maneira bem bacana para os meninos. O tema tem a ver com futebol. Como eles têm entre 16 e 22 anos de idade e um vigor bárbaro, dançam com uma energia de jogador e podem trabalhar isso nessa coreografia. A coreografia que eu ainda estou criando terá um prelúdio de Bach e será algo bem mais clássico, com trabalho de pontas, em trio. Eu acho que a técnica clássica é muito importante para que o bailarino seja completo, apesar de trabalharmos mais a dança contemporânea. Ou seja, eu quis dar, por meio das coreografias, uma formação completa, como a que nós temos o objetivo de passar durante o curso. A apresentação terá a relação do cotidiano com a dança, a relação da dança e da pessoa com o afeto, a técnica do ballet clássico e o valor da energia, do vigor da juventude.
BA – Você acompanha de perto o trabalho no projeto? Dá aulas lá também?
DC – Eu ainda não dei nenhuma aula e não sei se darei, mas faço os ensaios. Na verdade, eu prefiro mais ensaiar, porque corrijo, converso sobre dança. Aula é uma didática mais cotidiana e não é por isso que eles deixam de estar sempre comigo. Eles, principalmente, estão comigo todos os dias. Tem vezes, por exemplo, que eu junto o projeto com a companhia. E é isso: eu acho muito mais útil sentar com eles, ensaiar e direcionar o que estão fazendo, acho isso até maior do que ser a coreógrafa do espetáculo.
BA – Você acha que a dança ainda é uma prática artística e cultural a que poucos têm acesso no Brasil?
DC – Acho.
BA – E isso se dá tanto para quem quer se tornar um bailarino, atuar na área, como para quem quer assistir a apresentações e espetáculos?
DC – Também acho. Estamos engatinhando na questão da formação de público. Na verdade, nós temos um problema dos dois lados, de pouco público e de poucos espetáculos. As pessoas acabam se interessando pelo que a maioria fala. Acho que de dez anos para cá essa questão melhorou e acho até que minha companhia ajudou nesse processo. A dança deve ser para muitos, para todos, deve ser parte da sociedade e não ser vista somente como espetáculo. Por que numa plateia de uma apresentação de dança temos que ter, em maioria, gente que atua na área? Isso precisa mudar.
BA – Faltam políticas para incentivar a dança? O que você acha que deveria ser feito?
DC – Faltam incentivos, patrocínios. Nos Estados Unidos, por exemplo, há vários teatros de universidades que são abertos para apresentações semi-profissionais. Aqui faltam, por exemplo, teatros estruturados para espetáculos de dança, porque, apesar de dança e das artes cênicas estarem muito ligadas, as necessidades das encenações são diferentes. A dança tem que ter um palco que dê mais condições para movimento. Deveríamos, então, ter uma maior quantidade de teatros bem preparados para isso.


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1 de outubro de 2009 às 16:28
gostaria de saber como se sente apos a realizacao do comeco de m grande sonho ?????
estou fazendo um trabalho sobre atividades ritmicas gostaria de citar vc nele!!
17 de novembro de 2009 às 22:47
Débora,
já tinha grande admiração pela pessoa que vc é; e como isso se reflete no seu trabalho e agora mais ainda vendo o fruto disso tudo neste projeto tão bacana capaz de mudar a direção de uma vida através da dança.Gostaria de mais informação sobre seu trabalho e se possível ter o prazer de abrir a primeira edição da revista Spetaculo magazine que está sendo lançada em Vitória.ES