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Tentáculos da Comunicação


global-communicationsPor Ana Karina Bucciarelli 

É um fio que comunica uma mãe ao seu bebê durante a gestação. O cordão umbilical incansável transmite as sensações, necessidades e fluídos vitais. Essa é a primeira conexão de que se tem notícia entre seres humanos. E precisamos de muitos cordões como esse para formarmos uma comunidade. 

A unidade de um povo pode, entre outros símbolos, ser representada pela sua bandeira. A bandeira que é um pedaço de tecido cheio de tramas entrelaçadas. Fios que produzem uma imagem para comunicar identidade, origem, valores e a língua de uma nação. Fios que se aventuram em diferentes direções como afluentes de um grande rio conduzindo vida por todos os recantos. 

E depois de rompidos os cordões e consolidadas as raízes de um povo, é a língua que vai comunicar e despertar a curiosidade das pessoas sobre outros países e culturas. Entram em cena as linhas traçadas pelas tintas de caneta, os fios do telefone, os túneis de metrô, as estradas, linhas de ônibus, rotas de avião. Tudo com o objetivo único de nos transportar e nos conectar. 

E ao passo que o homem foi se aprofundando na tecnologia da comunicação, o imediatismo pela informação foi se tornando uma obsessão. A internet surgiu utilizando-se dos fios de telefone para se apresentar ao mundo, e em pouco tempo se tornou o veículo de comunhão entre os povos, através dos cabos de fibra ótica. A vida real em tempo real, através de um cabo e de uma linha telefônica. 

Deixamos de nos interessar pelo mundo da ficção e voltamos nossos olhos para o cotidiano alheio. O mundo todo se rendeu ao buraco da fechadura virtual. 

Agora a conectividade independe de cordões, cabos e linhas. A geração sem fio veio para dar mobilidade à conectividade. Não queremos saber da notícia depois que ela aconteceu. Precisamos ver a notícia acontecendo. Temos que fazer parte dela. Nos tornamos protagonistas de nossas próprias histórias. Participamos da história alheia à revelia de seus autores, que pela abrangência da rede mundial podem ser classificados todos como ghost-writters . 

A humanidade deu luz ao impossível! A conectividade hoje (pelo menos até a publicação desse artigo) é quase telepática. Nos tornamos Deuses, obras-primas de nós mesmos capazes de materializar todas as ideias. Imagino que em breve o homem, independente da distância, irá descobrir um meio de ler o pensamento alheio, e então não precisaremos mais dessas engenhocas sem fio a nos dizer o que se passa com fulano, beltrano e cicrano. Será nossa vida realidade ou nos inserimos em um roteiro de realismo fantástico? 

Mas se estamos mais próximos das pessoas mais distantes, é bem verdade que estamos mais distantes daqueles mais próximos. Com ou sem fio, o que interessa é estar logado na rede, e aí vale a lei da física, adaptada ao cenário atual: duas identidades não podem estar logadas em único computador. Nossas máquinas e tecnologias maravilhosas aguçaram nossa capacidade intelectual e estacionaram, na mesma proporção e rapidez nossas experiências humanas. Sobretudo nossas experiências humanizadoras.

Os governos, por exemplo, orgulham-se da segurança de seus sistemas de troca de informação pela rede mundial. Fazem propaganda dessas realizações, mas não se atrevem a falar sobre a segurança pública nas ruas das grandes cidades. 

Por isso, por mais cibernético que o homem tenha se tornado, suas ambições continuam as mesmas de séculos passados. O homem urge ser amado. E não conseguindo suprir esse vazio emocional acentuado pela distância que o progresso imprimiu nas relações, entope-se e se entorpece do símbolo que virou ícone das últimas gerações: o consumo. No momento consumimos informação. 

Mas tivemos tempo de refletir sobre a qualidade dessa informação que sorvemos com sofreguidão? Ou estamos muito ocupados atualizando nossa rotina para entretenimento de nossos “seguidores“? Temos que estar atentos, afinal, já dizia o ditado: o homem é aquilo que come, ou, aquilo que consome!

Fonte: Revista Continuum – Itaú Cultural (edição julho/agosto/2009):http://www.itaucultural.com.br

 

Um comentário para “Tentáculos da Comunicação”

  1. Ana Karina disse:

    Olá Prof. Raimundo!

    Obrigada por divulgar o artigo publicado pelo Itaú Cultural em seu site. Aproveito para parabenizá-lo pelo trabalho. É fantástico e nos enche de esperança. Nos prende o olhar no futuro.

    Grande abraço, Ana

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