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Sobre tons e zés que habitam as nossas irarás


 Por Rogério Menezes *

 

tom_z_3 Pé na estrada e perigas ver. A idéia era (e é) essa. Em vez de domingo no parque, domingo no sertão (de Irará; a duas horas de automóvel de Salvador). Em vez de Gil & Caetanos; Tom Zé, o grande menestrel pop dos nossos sertões.

Em vez de ficar ruminando sobre o óbvio e se queixando da loucura das grandes cidades, mergulhar em universos paralelos, em culturas ocultas (ou melhor, ocultadas) eternamente à sombra dos modismos impostos por todas as mídias. Sem saudosismo. Sem ilusões: como em todos os caminhos, pelo interior também existirão o sublime e o abjeto; o notável (variado) e o trivial (simples). A idéia era (e é) tirar a bunda da cadeira em frente ao imóvel computador-totem e chafurdar na poeira das estradas do interior da Bahia; revelar sentimentos, movimentos, pulsões, tendências, desejos, simpatias, antipatias – ou até mesmo nadas.

Logo ao chegar à cidade erma e quente, manhã de domingo de outubro, alguém me contou, apontando para posto de gasolina sem viço algum, sem charme algum, que nos espreitava: – Pertence ao meio-irmão de Tom Zé. Foi aqui que ele ameaçou se tornar frentista no período de ostracismo em que viveu. Legenda necessária ao caro leitor: tempo vivido pelo artista iraraense entre São São Paulo Meu Amor (o mais belo hino-criado-por-baiano-à-nossa-única-megalópole; ok, Sampa, de Caetano Veloso ocupa honroso segundo lugar) e a redescoberta desse baiano notável por David Byrne, que, justissimamente, o tirou do limbo ao qual o `destino´ o submetera (a justiça divina tarda, mas não falha, já dizia minha mãe, e acreditei nela) e o catapultou novamente à condição de antena da raça brasileira, condição da qual, aliás, nunca deveria ter saído.

Mas fazer o quê: vivemos num mundo e num Brasil em que os bons nem sempre são os que vencem no final do filme; e sempre foi assim, o mundo nunca foi melhor ou pior, o mundo sempre foi (e será) uma selva abissal na qual, para atravessá-la, será preciso travar luta renhida; portanto não há, repito, saudosismo algum, e sim estoicismo, no disco-rígido (H.D) deste velho lobo do mar que ora vos escreve.

Já sem a companhia de algum guia que soubesse tudo sobre Tom Zé e a cultura local (sim, ainda há culturas locais, caras-pálidas!, tenho certa dificuldade em entender como essas culturas locais ainda existem, mas, sim, sobrevivem, frouxamente ou galhardamente, a depender do foco, da hora e do lugar), busco a casa do avô de Tom Zé, e onde passou boa parte da infância. Passa por mim garoto nativo, e o inquiro: – Sabe onde fica a casa do avô de Tom Zé? Ele: – Num-sei-não-sinhô. Eu: – Você sabe quem foi Tom Zé? Ele: – Num-sei-não-sinhô! (Normal. Ao contar-lhe essa história, prezado leitor, não quero chafurdar na lama dos lamurientos e lamentar a des-memória das novíssimas gerações. A fila anda: como exigir daquele mirrado garoto nascido talvez em 2001-odisséia-no-espaço essa, digamos, informação-de-época?).

 Mas não posso deixar de lamuriar o que um outro `guia´ local me contou: a diretora do grupo escolar que hoje funciona na casa onde Tom Zé nasceu, manteve apenas a fachada do belo prédio construído no começo do século 20, e derrubou quase todas as paredes internas do lugar. Não satisfeita, pretende agora por abaixo todo o resto e fazer daquele espaço uma escola mu-der-na.  Aqui, e espero que o leitor me entenda e até mesmo se identifique comigo, a náusea (sartriana, mas não só) foi inevitável.

No final da tarde de domingo, enquanto, ao redor do coreto da pracinha central, via a banda passar (a filarmônica iraraense Vinte e Cinco de Dezembro; arrebatadora) e prospectava novos-velhos rítmos entre grupos de sambas de roda (entre os quais pontificava o trepidante Pisadinha), encontrei amiga muito querida de Salvador que não via havia muito. Constatamos que estávamos ambos sedentos por suculenta xícara de café com leite, tipo aquelas nas quais sorvíamos com imoderado êxtase nas nossas infâncias. De início, não acreditamos que pudéssemos encontrar essa almejada bebida quente no acanhado comércio noturno local, coalhado, invariavelmente, com as cocas-colas, cervejas e birinaites de sempre.

De repente, a luz. No hall de certa casa de família nas imediações da praça do coreto, improvisava-se pequeno bar, onde brilhavam sobre forte luz branca doces e salgados diversos. Nossa amiga e eu perguntamos com avidez, em nada ensaiado, mas afiado, dueto: – A senhora serve café com leite? Dona Gilka (assim se chamava a dona do, digamos, lar-bar) abriu sorriso orelhal (de orelha a orelha) e nos deu a boa notícia: – Não só sirvo, como convido vocês para tomar café com leite comigo lá dentro de casa. Entrem, meus queridos, entrem! Entramos; tomamos o mais revigorante café com leite que havíamos tomado em anos; e trocamos vários dedos de prosa com Gilka e a mãe, Dona Nilce, que, por sinal (e aqui voltamos ao começo desta história) conhecera e convivera com toda a família Santana (na qual o grande destaque musical era, e é, o nosso velho & bom Tom Zé).

Saímos de lá gratíssimos, e plenamente convictos: há todo um universo paralelo em pleno vigor nos nossos interiores, na direção dos quais deveríamos voltar os nossos olhares e antenas com mais intensidade. Ou seja, deveríamos olhar menos para os nossos próprios rabos e mais para o rabo dos outros (epa!). Perdão, Jean-Paul Sartre, mas nem sempre o inferno serão os outros.

 

 

* O escritor e jornalista Rogério Menezes viaja pelo interior da Bahia a convite da Secretaria de Cultura da Bahia.

 

 

Um comentário para “Sobre tons e zés que habitam as nossas irarás”

  1. Edneide disse:

    Nossa! lendo a matéria, me dei conta da sua profundidade e sobretudo da urgencia em apresentar Tom zé para meus alunos, assim como já apresentei Xangai,Vander Lee… Cresci naquela região,no entanto conheci Tom Zé depois que mudei pra Camaçari.

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