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O lado ruim da perfeição


 

Fonte: Site Revista Época 

Nos meus tempos de estagiária, toda vez em que eu participava de uma dinâmica de grupo e chegava aquele momento de dizer “seu pior defeito e sua melhor qualidade” tinha alguém que dizia “meu pior defeito é ser perfeccionista”. Meu impulso era atirar a caneta que eu tinha nas mãos no cidadão. Não é muita cara de pau? E isso lá é defeito? Ninguém tem coragem de dizer que não consegue cumprir prazos, não sabe trabalhar em grupo ou que sai atirando canetas em quem fala besteiras. Mas parece que quem precisa de uma canetada sou eu. Descobri que o perfeccionismo tem sido estudado seriamente por psiquiatras e psicólogos porque o excesso de exigências causa impactos significativos na saúde.

 

Em junho, pesquisadores se reuniram em Boston para discutir os problema causados pelo excesso de rigor consigo mesmo e com os outros. Em um dos estudos divulgados, cientistas canadenses acompanharam 450 pessoas com mais de 65 anos por seis anos e meio. Constataram que aquelas que se descreveram como perfeccionistas no início da pesquisa tinham 51% mais chances de morrer em comparação às pessoas que não se encaixavam nessa descrição. A culpa seria dos males desencadeados pelo estresse constante. Outro estudo sugere que mães perfeccionistas têm maior probabilidade de desenvolver depressão pós-parto.

 

Só um especialista pode saber se o seu grau de perfeccionismo pode causar mal a você e aos outros (aqueles seres que lhe chamam de neurótico). Mas um bom termômetro é notar o quanto você sofre com seus padrões de exigência. Muita gente poderá se reconhecer nessa descrição que eu encontrei, escrita pela psicóloga Valéria Palazzo:

 

“A pessoa perfeccionista pode ser definida como aquela que se esforça em melhorar o êxito de seu objetivo seguindo um padrão ideal. Este padrão ideal pode estar presente em todas as áreas; abrangendo desde bens pessoais, trabalho, relacionamentos e imagem corporal. Estas pessoas tendem a dar uma importância exagerada a tudo e nunca se sentem satisfeitas. Sempre ficam com a sensação de que poderiam ter feito ainda melhor. Na maioria das vezes, conseguem seu objetivo, porém, a energia para alcançá-lo é sufocante. O perfeccionista espera que todos ao redor sejam perfeitos (de acordo com o SEU modelo ‘particular de perfeição’) e se incomoda quando não consegue aplicar aos outros suas regras de disciplina. As pessoas do seu convívio não conhecem suas expectativas (porque não vivenciam a mesma necessidade de perfeição), o que gera tensão com sua família, amigos e colegas, e um grande sentimento de raiva. A chave está em entender que não é possível obrigar outras pessoas a ter atitudes perfeccionistas.”

 

Entendo que alguns casos podem realmente causar transtornos à saúde. Se você está nesse grupo em que suas próprias exigências lhe sufocam, o ideal é procurar a ajuda de um especialista. Ser como a Monica, a personagem competitiva e maníaca por arrumação do seriado americano “Friends”, pode ser engraçado na televisão. Na vida real, quando passa da medida, traz sofrimento.

 

Mas confesso que às vezes eu acho que, se as pessoas fossem um pouquinho mais perfeccionistas, o mundo seria um lugar melhor. Será que não costumamos ser autoindulgentes demais com o nosso modo de ser e agir? Gastamos mais do que deveríamos porque achamos que merecemos o mimo. Comemos mais do que deveríamos para compensar alguma frustração. Fazemos alguma tarefa mal feita porque já trabalhamos demais. Nos sentimos no direito de não ajudar alguém ou de tratar alguém mal porque estamos cansados ou estressados com a vida, com o trabalho, com a família.

 

Um pouco mais de autocobrança – e de sentir que é uma questão de honra cumprir aquilo que esperam de nós – não fariam a vida em sociedade fluir melhor? Bom, é a minha opinião. Será que eu é que sou perfeccionista nessa história?

 

Marcela Buscato

Um comentário para “O lado ruim da perfeição”

  1. simone disse:

    Gostei muito!

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