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Cinema e educação: reflexões sobre arte e sociedade


Fonte: Blog Acesso (http://www.blogacesso.com.br/?p=3180)

Charles Chaplin, Bonequinha de luxo, D. W. Griffith, Irmãos Coen, O Mágico de Oz. O que têm em comum esses nomes? Em diferentes épocas, cineastas e filmes fizeram da sétima arte mais do que entretenimento, levando à população educação e informação. Desde o fim do século 19, quando as primeiras sequências fílmicas foram apresentadas pelos Irmãos Lumière, o cinema encantou as pessoas, com sua capacidade de criar universos inesperados e até de mostrar novos ângulos de situações e lugares conhecidos. Porém, o que para uns representava fascínio, para outros soava como um mecanismo de alienação. Esse contraponto levou estudiosos, cineastas e artistas do mundo inteiro ao debate sobre a relação entre o cinema e o posicionamento crítico do espectador – ou, de forma mais objetiva, entre o cinema e a educação. Eles perceberam que essa relação não só é importante, como fundamental para o futuro do cinema e do desenvolvimento sociocultural da população.

Segundo o estudo A Educação pelo cinema, realizado pelos pesquisadores Gabriela Domingues Coppola, Gabriela Fiorin Rigotti e Carlos Eduardo Albuquerque Miranda, a indústria cinematográfica sempre foi considerada “um poderoso instrumento de educação e instrução”, até mesmo por produtores e diretores. Para os pesquisadores, o cinema coloca as questões do mundo numa seqüência que não se destina apenas à compreensão da história que está sendo narrada. “Este arranjo fílmico é um arranjo didático, em que o espectador, ao concentrar-se na história, aprende a olhar para o mundo, criando com as imagens uma visão de mundo”, explicam.

Sobre o assunto, Mônica Fantin, do Núcleo Infância, Comunicação e Arte da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, vai além. Para ela, a relação entre cinema e educação pode ser entendida a partir de dimensões estéticas, cognitivas, sociais e psicológicas. “Isso porque, ao analisar o cinema como um meio de contar histórias com imagens, sons e movimentos, mais do que a consciência, atinge-se os âmbitos social, político e cultural de cada pessoa. A experiência estética tem um respeitável papel na construção social e pessoal de significados de jovens e crianças”, afirma em Da mídia-educação aos olhares das crianças: pistas para pensar o cinema em contextos formativo.

Do conceito à experiência concreta, o Cineduc, entidade sem fins lucrativos com sede no Rio de Janeiro, criou uma metodologia de ensino e sensibilização para capacitar professores ao trabalho com as linguagens audiovisuais nas escolas. Segundo Elisabete Bullara, secretária executiva da Organização, é importante modificar o processo educativo por meio do desenvolvimento da consciência crítica e da expressão criativa, “mas antes disso, é preciso democratizar o acesso ao cinema. Por isso, promovemos festivais periódicos com entrada franca”, comenta.

Diretor e professor de cinema, Marcos Pimentel concorda que a formação de público no Brasil é realmente necessária, mas acha que a ação não pode ser tratada de forma isolada. Para ele, o aprendizado cinematográfico é fundamental para o desenvolvimento tanto do cinema quanto da sociedade. “Falamos de analfabetos funcionais, de pessoas que assinam o próprio nome mas não sabem o que lêem. Porém, nos deparamos cotidianamente com analfabetos sócioculturais, pessoas incapazes de enxergar o que está por traz da história de um filme”. Engajado em movimentos como o Festival Cineport – evento que reúne, anualmente, produções cinematográficas de países de língua portuguesa, do qual é coordenador –, Pimentel acredita que o papel do cinema é gerar mudanças. “Com o desenvolvimento de uma linguagem audiovisual e de um público qualificado, formaremos pessoas mais conscientes de seus próprios atos, construtoras da identidade cultural de sua nação, autores de sua própria história”, afirma.

Dez anos atrás, o filósofo Edgar Morin escrevia a pedido da UNESCO o texto Os sete saberes necessários à educação do futuro. Nele, o pensador afirmava: “A redução do outro, a visão unilateral e a falta de percepção sobre a complexidade humana são os grandes empecilhos da compreensão. Outro aspecto da incompreensão é a indiferença. E, por este lado, é interessante abordar o cinema, que os intelectuais tanto acusam de alienante. Na verdade, o cinema é uma arte que nos ensina a superar a indiferença, pois transforma em heróis os invisíveis sociais, ensinando-nos a vê-los por um outro prisma”.

Luíza Costa / blog Acesso

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