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A história do esporte mais popular do mundo


Foto Arnaldo Carvalho

Por Mariana Sgarioni | Foto: Arnaldo Carvalho

Estamos em 4 de fevereiro de 1969. Uma sangrenta guerra civil assola a República Democrática do Congo após um golpe militar. Milhares de dissidentes são mortos, o caos domina as ruas. Estrangeiros são obrigados a deixar o país, a situação está fora de controle.

Naquele dia, porém, algo de estranho acontece: os tiros silenciam e a paz volta por algumas horas. Grupos rivais surpreendentemente resolvem declarar um armistício – algo que as Nações Unidas vinham tentando havia tempos em vão. O motivo: o país inteiro, unido, deseja assistir a uma partida do Santos Futebol Clube com Pelé no ataque. Só que as regras africanas são claras: o Santos de Pelé deveria jogar com as duas seleções rivais em pé de guerra. O rei do futebol não se fez de rogado: deu seu show em duas partidas, animando as torcidas que, por um instante, esqueceram a discórdia.
Assim que os jogos terminaram e a delegação brasileira foi embora, o conflito recomeçou.

Nunca na história mundial, um esporte havia conseguido parar uma guerra. Até hoje, é a única competição que une dissidências políticas e é capaz de mobilizar multidões em torno de um mesmo ideal. É possível dizer que se trata de um fenômeno sociológico planetário. E que começou, quem diria, há mais de 3 mil anos, com uma turma que chutava crânios. Com o perdão do trocadilho, vamos então pras cabeças.

De onde surgiu o bate-bola

O Brasil pode ser o país do futebol, mas não foi aqui que tudo começou. Estima-se que as primeiras manifestações do que viria a ser o futebol tenham ocorrido na China, por volta de 3.000 e 2.500 a.C. Na época, em algumas regiões, havia o costume de chutar os crânios dos inimigos derrotados. Os crânios, que mais tarde seriam substituídos por bolas, tinham de ser chutados pelos soldados chineses entre duas estacas cravadas no chão, um primeiro indício das traves. Nessa época, havia um exercício de treinamento militar chamado Tsuh Kuh, em que jogadores deveriam lançar com o pé uma bola de couro enxertada com plumas e pelos em uma pequena rede, com abertura de 30 a 40 centímetros, cercada de varas de bambu.

No Ocidente, seu parente mais antigo era o grego epyskiros, disputado com os pés, num campo retangular, por duas equipes de nove jogadores. A bola era feita de bexiga de boi e recheada com ar e areia, que deveria ser arremessada contra as metas, no fundo de cada lado do campo. A prática também foi desenvolvida no Império Romano, como treinamento militar e, com as conquistas romanas, difundida por outras regiões da Europa, da Ásia e da África.

O que parece é que já naqueles tempos remotos a pancadaria fazia parte da tradição futebolística. Ao chegar à Bretanha, por exemplo, em cerca de 1175, há registros de que habitantes de várias cidades inglesas saíam às ruas chutando uma bola de couro para comemorar a expulsão dos dinamarqueses. A bola simbolizava a cabeça de um invasor. Por muito tempo, o confronto foi marcado pela violência: uma partida sempre acabava com pernas quebradas, roupas rasgadas, dentes arrancados. Era literalmente uma luta pela bola. Em 1700, os ingleses proibiram as formas violentas dessa disputa e a adotaram como atividade física. Com sua difusão pelos colégios do país, os diferentes tipos de regra em cada escola é que passaram a ser o problema. Duas dessas regras ganharam destaque na época: uma, jogada só com os pés, e outra com os pés e as mãos. Criava-se, assim, o football e o rugby, por volta de 1860.

A bola domina o Brasil

O futebol como conhecemos hoje é popular, de massa, e predomina em todas as classes sociais. Mas não foi sempre assim, sobretudo, quem diria, aqui no Brasil.

Quem trouxe a primeira bola para o país foi Charles Miller, em 1894. Paulistano do Brás, filho de um empregado de uma empresa ferroviária, ele foi mandado para a Inglaterra a fim de concluir seus estudos. Voltou com duas bolas na mala.
Ele mesmo contou, em uma entrevista à revista Cruzeiro, em 1952, como havia sido a primeira partida por aqui:

“Numa tarde fria de outono, em 1895, reuni os amigos, e convidei-os a disputarem uma partida de football. Aquele nome, por si só, era novidade, já que naquela época somente conheciam o críquete.
- Como é esse jogo? – perguntavam uns.
- Com que bola vamos jogar? – indagavam outros.
- Eu tenho a bola. O que é preciso é enchê-la.
- Encher com o quê? – perguntavam.
- Com ar.
- Então vá buscar que eu encho.”

O pioneirismo de Miller é contestado por alguns pesquisadores, que afirmam que a prática foi trazida por marinheiros às nossas praias, ou ainda pelo escocês Thomas Donohoe. Seja como for, no Brasil, no início, era realizado apenas entre a elite branca. No primeiro time oficial, o São Paulo Athletic Club (SPAC), e em todos os seguintes, era vedada a participação de negros. Tanto é que a expressão “pó de arroz” veio justamente do jogador mestiço Carlos Alberto que, para poder entrar em campo no Campeonato Carioca de 1914, clareou o rosto com o pó. O suor da partida derreteu a maquiagem e a torcida descobriu a farsa.

O escritor Graciliano Ramos chegou a dizer que o futebol era a prova da superioridade europeia sobre o brasileiro, afirmando que sua popularidade seria passageira. “Os verdadeiros esportes regionais estão aí abandonados: o porrete, o cachação, a queda de braço, a corrida a pé, tão útil a um cidadão que se dedica ao arriscado ofício de furtar galinhas, a pega de bois, o calto, a cavalhada, e o melhor de tudo, o cambapé, a rasteira. A rasteira! Esse, sim, é o esporte nacional por excelência”, escreveu na crônica “Traços a Esmo”, publicada em 1921. Já o escritor Lima Barreto chegou a formar a Liga Contra o Foot- Ball, tamanha a antipatia por seu elitismo, o que o tornava alienante e um “primado da ignorância e da imbecilidade”, escreveu no texto “Como Resposta, Careta”, em 1922, publicado no livro Marginália (Brasiliense, 1953).

Obsessão nacional

Somente na década de 1920, o futebol passou a abraçar todas as classes sociais – até então, a população de baixa renda só tinha vez na modalidade de várzea. O Vasco foi o primeiro grande clube a vencer títulos com uma equipe de jogadores negros e pobres. Foi uma verdadeira revolução brasileira, pois se passou a profissionalizar e pagar salários aos jogadores. Os operários também começaram a ser incentivados a jogar, uma vez que os donos de fábricas perceberam que o sucesso das equipes era uma ótima forma de divulgar seus produtos. “Operário que jogasse bem, que garantisse um lugar no primeiro time, ia logo para a sala do pano. Trabalho mais leve. Os garotos que jogavam no largo da igreja sabiam que, quando crescessem, se fossem bons jogadores, teriam lugares garantidos na fábrica”, escreve Mario Filho, em seu livro O Negro no Futebol Brasileiro (Mauad, 2003).

A partir do governo Getúlio Vargas, em 1930, o esporte ganhou ares mais profissionais, com a criação de uma política mais estruturada. Essa profissionalização acabou abrindo espaço definitivo para que os primeiros gênios nacionais entrassem em campo; gente que fez do esporte seu meio de sobrevivência, como Fausto dos Santos, Domingos da Guia, Leônidas da Silva, Waldemar de Brito e até mesmo Pelé.

Ter o melhor futebol do mundo se tornou obsessão nacional, uma afirmação do país. Viramos exportadores de craques, e a nossa história se confunde com a própria evolução do esporte. Passatempo de poucos, a atividade, então de elite, triunfaria e cresceria para ser uma instituição brasileira. Além disso, quem diria, acabou se tornando, como afirmou o antropólogo Roberto DaMatta no programa Roda Viva, da TV Cultura, o melhor professor de igualdade do Brasil. “As regras são fixas, simples, claras e não mudam facilmente. Os times precisam uns dos outros, a oposição é vista como parte do jogo. Todo mundo sabe que não se pode ser eternamente campeão, que perder ou ganhar faz parte. Quem é bom sempre aparece, não se pode ser craque com a cor da pele, ou o nome de família, ou o dinheiro, ou a fama do pai. E, finalmente, no futebol, todos estão sujeitos a regras.”

Você consegue imaginar algum outro contexto em que isso aconteça?

Leia e veja trechos da entrevista de Roberto DaMatta.

Fonte: Revista Continnum – Itaú Cultural, nº 27

(veja edição especial sobre Futebol em: http://www.itaucultural.com.br/index.cfm?cd_pagina=2689&mes_revista=8&ano=2010)

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