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Economia para todos


Este século traz a novidade das mídias sociais, o mundo mais conectado e aparentemente mais próximo. Ao mesmo tempo, temos uma sensação esquisita, como o Paradoxo de Gramsci: “Uma velha ordem agoniza enquanto uma nova ordem parece não ser capaz de nascer”. O modelo econômico clama para ser redesenhado, o meio ambiente e as sucessivas crises são claros sinais de que alguma coisa está fora da ordem…

E nós, brasileiros, de uma hora para outra somos a bola da vez. País das tendências, Cristo Redentor decolando, Copa do Mundo, Olimpíadas e um fosso muito grande entre o que parece ser uma sociedade desenvolvida e o que somos de fato. Nunca nos acostumamos nem nos preparamos para essa hora, que me faz pensar em uma frase que ouvi outro dia: “Está muito difícil viver e ser exemplo ao mesmo tempo”.

Não há melhor momento para descolonizarmos de vez o olhar sobre nós mesmos e perceber o que temos de único e valioso. Precisamos reforçar o papel do indivíduo como parte fundamental e protagonista dessa história.  Assim, reinventar a forma como trabalhamos hoje é um dos desafios, e a economia criativa, uma das grandes possibilidades, junto com a economia verde.

Sustentar-se é ser capaz de viver bem sem causar prejuízo a outras pessoas. O que leva ao prejuízo é o que hoje enaltecem: tornar a sociedade cada dia mais produtiva, com crescimento material, dentro de uma economia extremamente carbonizada e baseada na produção de coisas (objetiva) e não no fortalecimento de processos humanos para produção do intangível (subjetiva).

Economicamente, valorizamos demais o que temos e o que vemos, e de menos o que sentimos ou criamos. O filósofo português Agostinho da Silva disse que “o homem não veio ao mundo para produzir e sim para criar” - na ânsia de produzir, vejo o Brasil com modelos de negócios ainda mal estruturados para surfar a grande onda da economia criativa, e com baixo investimento em novas saídas, limitando o potencial econômico e quiçá arriscando a perder a oportunidade…

Em última instância o que sustenta o indivíduo de fato é a “riqueza” da sua subjetividade. Criar é o espaço da geração da vida e da evolução. O ciclo da criação oxigena, traz novidades, gera novas formas de ver e fazer, em um fluxo orgânico e sustentável. Ainda, criar supõe refletir, inquirir, estudar, potencializando os indivíduos e colocando-os em uma posição de igualdade.

Gosto muito do conceito da economia criativa porque é uma grande possibilidade em si mesma; abre o espaço da abundância (criação) a algo que está patinando nas suas limitações e/ou artificialidades da escassez (economia dita convencional). A nossa capacidade de criar é o nosso bem mais precioso, e quanto mais exercitado mais tende a aumentar. O que precisamos é desenvolver modelos que possibilitem a geração de fluxos e interações contínuas dos indivíduos hoje conectados.

A economia criativa traz benefícios pelo viés econômico, porque criar é em si um ato fundamental de aprendizagem integral - ao conjugar a subjetividade do indivíduo com a sua capacidade de fazer acontecer, aprender consigo mesmo e com os outros com base em interações. Uma sociedade que ganha com o que aprende. Não seria fascinante exercitarmos o aprender (criar) e ainda se sustentar economicamente com essa criação?

Esse é o espaço econômico que quero ajudar a construir. Espaço em que a abundância esteja presente e o conceito de elasticidade seja percebido como uma borracha de bodoque, que puxamos ao máximo para lançar ideias, inspirações e sentimentos. E que as pessoas se sintam mais alegres, inspiradas, amorosas e ricas. Espaço que se consolida em “ser mais” - mais você e mais o que você valoriza. Sem demandas desnecessárias e consumos destrutivos, mas um consumo que estimule o potencial maior de cada um. Um consumo que faça expandir nossa vida e nossa consciência.

Avante e vamos inaugurar um espaço econômico para todos. E já que a moda é o crowd, essa é uma verdadeira possibilidade de crowd economy, em que cada um pode participar interagindo com o outro com o que tem de melhor - você mesmo!

Por Reinaldo Pamponet Filho

Artigo publicado no site Itaú Cultural

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