Mãos à obra
A internet é um celeiro de iniciativas artísticas coletivas que possibilitam a todos criar
Uma pessoa resolve usar broca de dentista para abrir um buraco no próprio crânio e assim expandir a consciência, em plena praça pública. Outro inventa a Igreja da Dependência Consciente da Nicotina, onde centenas de fiéis entoam o mantra “cof, cof, cof”, e trava uma guerra contra as indústrias de cigarro. As tradicionais estátuas de Amsterdã são pintadas de branco por vários cidadãos, sem motivo aparente. Um indivíduo tem a ideia de espalhar bicicletas brancas por uma cidade, à disposição de quem queira usar, como forma de protesto contra a poluição e o trânsito caótico. A produção, a mobilização e a divulgação de dezenas de eventos como esses poderiam ter sido feitas com a ajuda da internet e das redes sociais nos dias de hoje. Mas como se trata de fatos ocorridos há pelo menos 50 anos, na capital holandesa, esse trabalho foi feito de forma “analógica” e com muito sucesso, graças ao poder de envolvimento dos participantes.
Avós do flash mob [movimento que convoca seguidores por meio
de determinada mídia a realizar uma ação coletiva pública geralmente ligada a uma causa] e de tudo o que se entende por produção colaborativa atualmente, as pessoas cujas ações foram descritas acima fizeram parte do Provos, grupo cultural anarquista, marco do nascimento da contracultura, que agitou a Holanda na década de 1960 e influenciou estéticas fundamentais como a dos hippies, dos punks e dos beatniks. Eles criaram alternativas como o uso das bicicletas coletivas em Amsterdã e Barcelona, além de inspirar a legalização da maconha e da prostituição na capital holandesa. Embora muitos nem sequer tenham ouvido falar deles, o Provos foi essencial para a formação cultural no mundo contemporâneo. Se sua proposta era o rompimento com valores sociais, políticos e econômicos, hoje a produção coletiva é guiada por um componente essencial: a tecnologia.
Segundo o antropólogo Hermano Vianna, um dos idealizadores do site colaborativo Overmundo, voltado à produção cultural, e autor dos livros O Mistério do Samba (1995) e O Mundo Funk Carioca (1996), ambos lançados pela editora Jorge Zahar, a internet demonstrou desde o início que as pessoas não querem só consumir coisas produzidas por uma minoria, querem também produzir suas próprias notícias e conteúdos. Além das redes sociais, que não são usadas apenas como entretenimento, a colaboratividade já está mais do que consolidada na comunicação. “Existem experiências bem interessantes nos sites de grandes jornais, como enviar fotografias, vídeos e textos de leitores”, opina Vianna. Vale lembrar que os jornalistas-cidadãos, como são conhecidos, munidos de celulares e câmeras digitais, foram essenciais nas recentes ondas de protesto no mundo árabe, principalmente em países cujo governo controla a imprensa.
Enxergar o invisível
No universo das artes, Aaron Koblin (aaronkoblin.com), artista multimídia, cujo trabalho integra o acervo permanente do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), é uma prova bem-sucedida da criação colaborativa. Em um de seus projetos, Ten Thousand Cents (tenthousandcents.com), de 2008, o norte-americano, que é funcionário do laboratório de criatividade do Google, na Califórnia, dividiu uma cédula de 100 dólares em 10 mil partes e as distribuiu para que fossem redesenhadas por internautas. Ao final, todos os desenhos foram anexados formando uma cédula artística de 100 dólares que foi vendida por esse valor. O dinheiro gerado foi doado a um projeto de venda de laptops a preços populares. O sucesso do trabalho rendeu a Koblin o convite da banda canadense Arcade Fire para fazer o clipe da música “We Used to Wait”, um vídeo interativo e colaborativo em 3D. O projeto, The Wildnerness Downtown (thewildnernessdowntown.com), de 2010, usou o Google Maps para programar uma viagem em que o “internauta-criador” pode desenhar ou escrever qualquer coisa em uma das várias telas durante a música. Ainda nessa área, ele fez, em 2009, o vídeo House of Cards, da banda inglesa Radiohead. Nele, todas as imagens são reproduções 3D criadas com base em dados obtidos por sensores laser.
O artista – que veio ao Brasil em novembro do ano passado para dar uma palestra no evento TEDx Amazônia – aposta em novas maneiras de mostrar conteúdo, no envolvimento do maior número de pessoas em um trabalho artístico e na tecnologia como nova plataforma de expressão. “A tecnologia permite enxergar o invisível, compreender melhor assuntos importantes e nos envolver mais com eles”, disse.
O esforço colaborativo (conhecido por crowdsourcing, em inglês) é recorrente nas produções de Koblin. Em Bicycle Built for Two Thousand (bicyclebuiltfortwothousand.com), de 2009, por exemplo, o artista coletou trechos de mais de 2 mil vozes de pessoas de 71 países, e, ao uni-las, recriou a canção “Daisy Bell”, do inglês Harry Dacre. O curioso é que cada participante apenas repetiu um barulho que ouvia, sem ter ideia do que aquilo viraria. Já no Johnny Cash Project (thejohnnycashproject.com), de 2010, cada envolvido fazia um desenho que formaria uma sequência com os demais, gerando um videoclipe para “Ain’t no Grave”, canção inédita do cantor, que faleceu no início do ano passado. “O incrível pode ser feito quando as pessoas estão reunidas”, completa.
Mescla de linguagens
Em São Paulo, um grupo de artistas de diversas áreas decidiu se reunir em 2005 para trabalhar sob o princípio da colaboração. Assim, surgiu a Casadalapa (casadalapa.blogspot.com), coletivo de 18 pessoas que divide uma casa espaçosa na Vila Ipojuca, zona oeste. “Aqui você pode mostrar seu trabalho sem se preocupar com o fato de que, muito provavelmente, poderiam estar querendo o seu lugar, como ocorre na maioria das empresas convencionais”, explica o designer Fernando Sato, um dos pioneiros da iniciativa. “Basta substituir o mecanismo da competição pelo da colaboração, que as possibilidades de troca passam a ser, virtualmente, infinitas”, explica Julio Dojcsar, artista plástico, cenógrafo e grafiteiro pertencente ao grupo.
Mas como funciona no dia a dia o mecanismo de interação criativa entre tantos e tão diversos artistas? Thiago Dottori, que assina, entre outros, o roteiro do filme Vips, estrelado por Wagner Moura, explica que a principal diferença é que ali o que os integrantes perseguem é justamente criar obras que não “hierarquizem” as relações de trabalho, mas em que a criação seja coletiva o tempo todo, sem que haja, por exemplo, um “diretor” conduzindo o processo. Ele acrescenta que não se trata da convergência de um único objeto artístico, mas, sim, de diferentes e múltiplos realizadores. Em alguns processos coletivos isso já é bastante evidente como em Enquadros 1 e 2, obras definidas nos corredores da casa como HQs Urbanas. Neles se mesclam intervenção, grafite, vídeo, fotografia e dramaturgia. Outros exemplos recentes são a exposição multimídia Onde Está o Craque? e as edições do MixtoQuente, evento no qual as portas da casa são abertas para receber a comunidade, numa fusão singular de show, exposição e cinema.
Esse novo modelo de trabalho colaborativo também inspirou o surgimento do Coletivo Catarse (coletivocatarse.blogspot.com), em Porto Alegre, em 2004. Dissidente da cooperativa de comunicação Comunica, criada quatro anos antes, o grupo reúne atualmente 16 pessoas das mais diversas áreas. O coletivo, além do trabalho de comunicação social, realiza projetos culturais, como mais de 50 curtas, médias e longas-metragens, registros de eventos, videoclipes, reportagens, trabalhos em educação e capacitação, arte gráfica, produção de eventos e assessoria de comunicação. “Não existe uma pessoa ganhando em cima do trabalho das outras”, explica um dos cooperados, Jefferson Pinheiro. “Quando sobra algum dinheiro, ele é reinvestido no trabalho do Catarse. A gente acredita inclusive que a estrutura do cooperativismo é mais interessante”, completa.
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TEXTO Leonardo Calvano
Itaú Cultural



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