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Cinema Transcendental


Pipoca numa mão, controle remoto na outra, você escolhe aprogramaçãonoturna da sua web-TV. Decide assistir a um filme romântico, apesar de detestar finais felizes. Mas isso não é mais um problema, pois você pode mudar a história, interferir no roteiro. Nada de final perfeitinho dessa vez: você prefere fazer a mocinha fugir com outra mocinha, deixando o noivo plantado no altar. Não é ficção científica, isso já aconteceu, por exemplo, com o thriller americano Last Call (2010), no qual, por meio de uma estratégia de marketing, o espectador pôde escolher qual desfecho desejava para a história.

Para pessoas anárquicas é um alívio constatar que o jeito linear de fazer cinema está sendo implodido frame a frame. Que o diga Ridley Scott, diretor do aclamado Blade Runner e responsável, ao lado do também diretor Kevin Macdonald, pelo Life in a Day, audacioso projeto de cinema colaborativo, desenvolvido com o suporte do YouTube. Usuários do site enviaram 80 mil vídeos de 197 países, em 45 idiomas, retratando um dia comum de suas vidas – 24 de julho de 2010. As 4.500 horas de material se transformaram num longa de 90 minutos que estreou neste ano no Festival de Cinema de Sundance e também no YouTube. Os autores dos vídeos incluídos no projeto tiveram seus nomes inseridos nos créditos, como codiretores.

Revolução total, mas ainda dentro dos padrões do mainstream: a indústria do entretenimento dando vazão à fome do cidadão comum de fazer cinema. O projeto repensa o papel do diretor e dá visibilidade a uma série de iniciativas semelhantes. Pretendem-se mais diversidade, espaço para experimentações, chance de contar (ou assistir a) uma história com diferentes visões de mundo.

É claro que, sem a popularização das câmeras digitais, das ilhas de edição domésticas, dos softwares livres e dos programas e plataformas de compartilhamento de conteúdo, nada disso seria possível. “Daqui a dez anos teremos ideia do que isso proporciona, mas a princípio é a democratização do audiovisual”, argumenta Alessandro Buzo, escritor do grupo Suburbano Convicto, que há dois anos rodou seu primeiro filme, Profissão MC, codirigido por Toni Nogueira. Mesmo sem nenhum patrocínio e lançado há mais de um ano, o filme continua sendo exibido. Foi apresentado no Japão e em Portugal às comunidades brasileiras e ainda ganhou a medalha Galgo Alado, no Festival de Gramado.

Assim como Buzo, centenas de criadores encontraram um público ávido por uma filmografia mais autêntica e inclusiva, livre dos clichês do cinema tradicional. “Numa sociedade que se comunica por imagem, o audiovisual tem multiplicado vários tipos de interação. A [favela da] Rocinha, no Rio de Janeiro, tem seu canal de TV na internet, assim como a turma do hip-hop. São as comunidades assistindo aos seus próprios conteúdos, fugindo das lógicas comerciais, industriais”, analisa Minom Pinho, uma das idealizadoras da Casa Redonda, espaço de experimentação cultural, em São Paulo.

Do portfólio da Casa Redonda consta desde a coprodução de longas (como As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodansky) até a criação e gestão de projetos culturais, como o Festival Claro Curtas, que privilegia a produção de vídeos por celulares, webcams e outras mídias digitais. “Tudo está mudando de lugar numa velocidade incrível. Continuará havendo espaço para o cinema e a TV, mas cai o mito do diretor inatingível e da construção do imaginário popular feita por um grupo de privilegiados. Hollywood decidia o que o mundo iria ver. Hoje, o meio é a mensagem. Há um exercício de cidadania, uma visão crítica mais aguçada”, argumenta Minom.

Do ponto de vista estético, no entanto, esse farto material postado na internet ainda deixa a desejar. “Tento ser solidário e respeitar o tempo dessas produções; tento ser esperançoso com o amanhã. Mas já é chegado o momento de insistirmos num novo passo em direção ao aprimoramento estético. Temos de abandonar a miséria da proliferação e do excesso vazio”, afirma o cineasta curitibano Gilberto Manea.

Autêntico e marginal

Colaboração é a palavra de ordem do cinema digital. Não há equipamento? Improvisa-se. Faltou equipe? Chama-se o vizinho. Essa gana de contar uma história a qualquer custo move o chamado cinema de bordas, assim batizado por acadêmicos, como Bernadette Lyra – uma das curadoras da mostra de mesmo nome apresentada já há três anos pelo Itaú Cultural –, que mapeia essa rica produção marginal e quase naïf em muitos casos.

“Existem desde filmes feitos por pessoas sem formação, como o pedreiro seu Manoelzinho,  que dirige filmes, até vertentes de cinema fantástico e de terror”, explica Joel Caetano, ator, roteirista, produtor e diretor de filmes premiados, como Minha Esposa É um ZumbiJunho Sangrento Assassinato da Mulher Mental. Não por acaso, a empresa produtora que dirige ao lado da mulher, a também cineasta multitarefa Mariana Zani, chama-se Recurso Zero Produções.

Vencer o gargalo da distribuição parece ser o principal desafio. “Mercado e público existem. Várias pessoas estão a fim de ver cinema feito com e por gente da vida real e não só pela elite intelectualizada. Uma cooperativa para distribuir nossos filmes talvez seja a saída”, sugere Caetano.

Parcerias têm se revelado uma forma viável para dar vazão ao cinema de nicho. O núcleo de produção audiovisual da Central Única das Favelas (Cufa), em São Paulo, conseguiu alavancar inúmeras ações depois de se unir ao coletivo Tá na Tela (TNT) – nascido em 2005, no bairro paulistano de Paraisópolis, e responsável por promover sessões de cinema produzido na periferia. A parceria rendeu ainda a participação dos dois grupos no Estéreo Saci, projeto do Itaú Cultural que, entre outras ações, promove a criação e a edição colaborativa de vídeos.

Outro exemplo é o do documentarista acreano José Tezza, que se vale da temática ambiental para dar capilaridade aos seus 38 filmes. Exibindo-os em circuitos do setor, ele transcende as fronteiras nacionais e desperta o interesse dos adeptos do desenvolvimento sustentável em todo o mundo. “O [filme] Sementes Vivas foi produzido por mim, dirigido pela americana Marise Murgatroid, editado por um inglês, com trilha sonora de um japonês; cada um trabalhando em seu país. O lançamento foi na The Royal School of Art, em Londres”, orgulha-se.

E que tal ter uma distribuidora própria? Foi essa a decisão tomada pelo Clube de Cinema Fora do Eixo (CdC), rede de produtores presente em vários estados. Para dar conta de sua frenética produção audiovisual e ampliar o acervo dos seus 20 cineclubes e dez canais de web-TV, o coletivo criou a DF5 (Distribuidora de Filmes Fora do Eixo), que permite ao exibidor buscar o filme que quer ver, baixar e exibir. “Como contrapartida ele precisa compartilhar os dados da exibição, de preferência com uma foto da sessão, para que possamos contabilizar os números reais da carreira de cada filme”, explica Rafael Rolim, do CdC. O objetivo do clube, que reúne a produção de diferentes realizadores e abre espaço a linguagens estéticas variadas – da experimental a reportagens–, é consolidar na rede toda a cadeia produtiva do audiovisual que vive fora do circuito.

Conquista estética

Ninguém duvida que a democratização do cinema digital ainda renderá muitos filmes. Há dez anos desenvolvendo cursos e oficinas de cinema e vídeo, os parceiros Marco Del Fiol e Philippe Barcinski apenas recentemente conseguiram verba – por meio de um edital da Secretaria da Cultura de São Paulo – para financiar seu projeto. O telefilme Segundo Movimento para Piano e Costura foi todo rodado com máquinas fotográficas que captam imagens com excelente qualidade. Estreou em maio na TV Cultura e agora faz o circuito dos festivais. “O equipamento está bem mais barato, os sistemas operacionais já vêm com opção de aplicativo de edição de vídeo e a distribuição pode ser feita em sites de postagem de vídeos”, diz Del Fiol, que é diretor, câmera, editor e corroteirista do filme. “As ferramentas estão todas muito mais acessíveis, o que falta é o domínio da linguagem”, emenda.

Gilberto Manea insiste na importância de captar imagens como se fossem pedras raras e preciosas: “Temos de desejar o cinema como alquimia, para que surja o instante único e singular, a epifania que vislumbramos nos grandes cineastas. Será preciso recuperar o sentido e o valor de um rosto, de uma paisagem. Tal aprimoramento estético só será possível levando-se em consideração os clássicos, as velhas lições nas quais a imagem fissura, rasura a realidade”.

Denise Ribeiro/ Itaú Cultural

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