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	<title>Cidade do Saber &#187; Artigos &amp; Afins</title>
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		<title>Saudades de um tempo que não vivi</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Feb 2012 12:32:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ASCOM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos & Afins]]></category>

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		<description><![CDATA[Cresce entre os jovens o culto a músicas, filmes, roupas e objetos de design
do passado. A onda retro é uma marca da “geração shuffle” – que mistura,
com prazer, gostos de várias épocas


No celular de Rael Dill de Mello, empresário gaúcho de 23 anos, as faixas de música pulam de uma década para outra. Ele escuta [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><em>Cresce entre os jovens o culto a músicas, filmes, roupas e objetos de design<br />
do passado. A onda retro é uma marca da “geração shuffle” – que mistura,<br />
com prazer, gostos de várias épocas</em></p>
<p style="text-align: center;">
<p style="text-align: justify;"><em><a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2012/02/715_retro_01.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-18184" title="715_retro_01" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2012/02/715_retro_01.jpg" alt="" width="620" height="718" /></a></em></p>
<p style="text-align: justify;">No celular de Rael Dill de Mello, empresário gaúcho de 23 anos, as faixas de música pulam de uma década para outra. Ele escuta clássicos do rock da década de 1970, blues dos anos 1930, grupos eletrônicos do fim do século XX e sucessos populares do cancioneiro gaúcho da década de 1960, como Teixeirinha e Os Serranos. “Às vezes nem sei de que época é cada som. Jogo tudo lá e ouço misturado”, diz ele. Rael já teve um Opala 1976 e outro 1992 e usa calças boca de sino. “Gosto de coisas antigas”, afirma. Aos 17 anos, a estudante paulistana Danielle Longobardi se inspira no estilo hippie de vestir. “Gosto de saia comprida, headband, bolsas com franja”, diz ela, como se as peças que marcaram a década de 1970 tivessem sido criadas na última estação. “Agora todo mundo está usando.” Fã de Elvis Presley, Beatles, Bob Marley e Janis Joplin, Danielle não existia quando seus ídolos estavam vivos. Mesmo assim, ela tem acesso fácil e rápido aos shows deles, assim como outros de seus artistas atuais favoritos, como David Guetta e Snow Patrol. Os vídeos de todos eles, novos e antigos, estão misturados na internet.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2012/02/715_mensagem_cultura.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-18185" title="715_mensagem_cultura" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2012/02/715_mensagem_cultura-194x300.jpg" alt="" width="194" height="300" /></a>Rael e Danielle pertencem à geração shuffle. Assim como nos tocadores digitais de música, em que a função shuffle mistura aleatoriamente uma coleção de canções, eles podem ouvir e ver o que quiserem na internet numa ordem aleatória. Épocas, estilos e origens são embaralhados. Eles cresceram no espaço cultural da internet, onde aquilo que é antigo tem o mesmo espaço e valor que o novo – onde o mais velho e o mais recente convivem lado a lado, ao alcance instantâneo de um toque de tela ou de teclado. Nos últimos anos, a internet se tornou o centro de um fenômeno que domina a cena cultural: a prática de reciclar e celebrar o passado. Não se trata, porém, da velha nostalgia que faz seu avô se emocionar ouvindo discos de Silvio Caldas ou vendo, pela 20ª vez, as cenas românticas de<em> Doutor Jivago</em>, sucesso dos anos 1960. O apego ao que se viu, ouviu ou viveu no passado é algo que nós todos sentimos e que se confunde com a saudade da própria juventude e de si mesmo. O que está em curso com a onda retrô é diferente.</p>
<p style="text-align: justify;">Pratica-se agora, abertamente, o culto pela música, pela moda e pelo comportamento de outras gerações. A garota que se veste como hippie não viveu o movimento hippie. O rapaz que anda de Opala ouvindo Deep Purple não viveu os anos 1970. Eles se associam a um passado que não pertence a eles, e o fazem de uma forma cada vez mais natural, às vezes imperceptível. Não se trata de vestir uma fantasia para dançar rock dos anos 1950 num clube em que todos fazem o mesmo. O que se faz agora é mais universal e mais sutil. Rael não está preocupado em curtir música das gerações anteriores. Apenas o faz. Danielle, embora se identifique com o ideário do movimento pacifista, não faz parte de um clube em que todos se vestem como nos anos 1960. Muitos jovens estão imersos em produtos e ideias do passado e nem percebem. A retromania – também chamada por outros pensadores de “cultura do revival”, “retrorrevolução” e “retrofuga” – está no dia a dia de todos, num movimento alimentado tanto por produtores como por consumidores. “O presente parece um país estrangeiro”, disse a ÉPOCA o crítico musical inglês Simon Reynolds, autor do livro <em>Retromania – Pop’s culture addiction to its own past</em> (<em>Retromania – O vício da cultura pop em seu próprio passado</em>, sem previsão de lançamento no Brasil). “O passado é algo bacana e exótico para a maioria das pessoas. A palavra novo se tornou ultrapassada.”</p>
<p><a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2012/02/715_anos50_01.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-18186" title="715_anos50_01" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2012/02/715_anos50_01-236x300.jpg" alt="" width="236" height="300" /></a></p>
<p><a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2012/02/715_anos50_02.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-18187" title="715_anos50_02" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2012/02/715_anos50_02-236x300.jpg" alt="" width="236" height="300" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>AS TRÊS CATEGORIAS DO RETRÔ </strong><br />
O livro de Reynolds é uma investigação sobre a cultura retrô e uma compilação de exemplos e ideias que demonstram sua força em todas as artes. Didaticamente, o autor divide as aparições da retromania em três categorias. Antes de tudo, há a presença do passado da maneira com que ele foi concebido originalmente. É o caso de um dos grandes filões da indústria cultural atual: a reedição de discos, filmes, programas de televisão e livros. Tudo está sendo revisto e reimpresso, das grandes obras da literatura mundial aos projetos arquitetônicos de gigantes como a arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi (1914-1992) e o francês Le Corbusier (1887-1965).</p>
<p style="text-align: justify;">Outra categoria da retromania é a presença viva de personalidades que tiveram o auge de sua criatividade décadas atrás e que ainda vivem dessa glória. Astros como Paul McCartney, Eric Clapton e Chico Buarque são verdadeiros dinossauros da música que ainda lotam plateias em suas turnês – e muitos dos espectadores são jovens entusiasmados, não só coroas saudosos. É o mesmo apelo do fetiche pelo vintage – aqueles objetos antigos que, por razões estéticas, tornaram-se novamente valiosos. Por causa disso, proliferam os brechós, os antiquários de móveis de design e se faz, em toda parte, uma verdadeira redescoberta dos acervos familiares.</p>
<p style="text-align: justify;">Por fim, a terceira e mais comum manifestação do retrô enumerada por Reynolds é a apropriação de propostas e estilos de outras décadas por criadores de hoje, que muitas vezes misturam várias tendências do passado em imagens, formas e sons repaginados. É o caso da febre pelas séries de televisão de época, como <em>Mad men</em>, que revive o ambiente da Nova York dos anos 1960, e os remakes de sucessos de audiência, como a novela <em>O astro</em>, da Rede Globo. No cinema, multiplicam-se as refilmagens de filmes que deram certo há 30 ou 40 anos (como <em>Planeta dos macacos</em>, <em>Karatê Kid</em> e <em>Tron</em>) ou se assiste, como agora, a uma retomada vigorosa de temas antigos. O Oscar deste ano está povoado de histórias sobre o passado, que nada têm a ver com os temas contemporâneos que costumavam arrebatar audiências e estatuetas. As aventuras de<em>Tintim – O segredo do unicórnio</em>, de Steven Spielberg, é um bom exemplo. Há também <em>Cavalo de guerra</em>, do mesmo Spielberg, ou <em>A dama de ferro</em>, sobre a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher. O exemplo mais eloquente é o filme francês <em>O artista </em>– filmado em branco e preto, mudo, contando uma história dos anos 1930, ele ameaça ser a grande sensação do Oscar 2012. “Outras eras tiveram suas próprias obsessões com o antigo, da veneração da Renascença pelo classicismo romano e grego à invocação do medieval no movimento gótico”, diz Reynolds. “Mas nunca houve uma sociedade na história humana tão obcecada pelos artefatos culturais de seu próprio passado imediato.” É como se as transformações no comportamento e a facilidade e a rapidez da produção e do acesso aos bens culturais dos últimos 60 anos tivessem sido tão intensos que agora a humanidade se volta para trás, revolvendo a memória na tentativa de digerir e entender o que se passou.</p>
<p><a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2012/02/715_anos60.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-18188" title="715_anos60" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2012/02/715_anos60-114x300.jpg" alt="" width="114" height="300" /></a></p>
<p><a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2012/02/715_anos60.jpg"></a><a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2012/02/715_60-s.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-18189" title="715_60-s" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2012/02/715_60-s-230x300.jpg" alt="" width="230" height="300" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>TUDO COMEÇOU NA MODA</strong><br />
A indústria tradicional se apodera do retrô como algo capaz de atrair consumidores, mas produtores independentes usam estilos de décadas passadas de modo mais artístico, como forma de imprimir um estilo pessoal a roupas, música, objetos, vídeos e eventos. É o caso do produtor cultural Eduardo Beu, de 40 anos. É seu gosto pessoal que leva à curadoria de mostras de cineastas antigos, ao blog que escreve sobre cultura retrô e à organização de shows com repertório de cantoras francesas dos anos 1960, como os que fez em São Paulo. “Não sou nostálgico. Gosto de cultura retrô ao mesmo tempo que adoro tecnologia”, diz ele, que também trabalha com edição de vídeos. A estilista Patrícia Grejanin, de 37 anos, fez de sua afeição pelo rock e pela estética dos anos 1950 a referência principal de sua grife de roupas, a Laundry, que existe desde 2003. “Todo estilista tem sua década preferida. A minha é essa”, afirma. “Mas o que importa é o meu olhar sobre esse estilo feminino e colorido de vestir.”</p>
<p style="text-align: justify;">Outra razão para a retromania é a expansão da produção. O lançamento de discos, filmes, roupas e objetos de uso doméstico nunca foi tão grande. Os prazos de invenção, porém, são muito mais curtos do que costumavam ser no passado. A indústria tradicional teve de se adaptar a essas novas circunstâncias. “Existe nas empresas um pão-durismo criativo”, diz o ecodesigner Fred Gelli. “É mais fácil reutilizar um design que deu certo no passado do que pensar em como fazer diferente.” Nem sempre foi assim. Segundo Reynolds, a apropriação sistemática de ideias antigas pela indústria se iniciou no campo da moda, nos anos 1970. Mais que uma estratégia de lucro, havia ali um esgotamento criativo após o ápice do futurismo fashion promovido por estilistas como Courrèges, Pierre Cardin e Paco Rabanne – este último assinou os figurinos de Jane Fonda no filme futurista <em>Barbarella</em>, de 1968. “Não houve outra revolução tão importante como a dos anos 1960”, diz a empresária e consultora de moda Costanza Pascolato. “Tudo o que veio depois já havia sido feito antes.” A moda foi pioneira no uso comercial e criativo do retrô. Nos anos 1970, a butique londrina Biba se voltou para a art déco dos anos 1920 para criar o estilo glam, imortalizado por David Bowie e seu personagem Ziggy Stardust. Hoje, os ciclos de produção da moda são tão curtos que seria impossível inovar a cada estação. A cópia virou uma necessidade produtiva e empresarial.</p>
<p style="text-align: justify;">A obsessão com o passado parece ter a mesma força que tiveram, durante boa parte do século passado, as ideias de vanguarda e revolução. Acreditava-se que a cultura deveria progredir em todos os aspectos, sempre. Em seu <em>Manifesto futurista</em>, o poeta italiano Filippo Tommaso Marinetti (1876-1944) fazia a mais ousada proposta de superação do passado entre os pensadores de seu tempo. O texto escrito em 1909 convocava a juventude italiana a desviar o curso dos canais para inundar os acervos de museus, a incendiar as estantes das bibliotecas e a destruir cidades com picaretas e martelos. Não havia nada pior para um futurista que a memória. Os acervos, porém, continuaram intactos e cada vez mais completos e organizados. Mas a ânsia pela novidade e pela próxima revolução existe até hoje. É comum ouvir frases como “não me lembro da última vez em que vi algo genuinamente novo”.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2012/02/715_anos70_1.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-18190" title="715_anos70_1" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2012/02/715_anos70_1-114x300.jpg" alt="" width="114" height="300" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2012/02/715_70-s.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-18191" title="715_70-s" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2012/02/715_70-s-233x300.jpg" alt="" width="233" height="300" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">No século XXI, porém, nem o novo existe como antigamente. O crítico de arte francês Nicolas Bourriaud escreveu no ensaio <em>Pós-produção – Como a arte reprograma o mundo contemporâneo</em>que, desde o início dos anos 1990, a multiplicação da oferta cultural fez com que a arte se tornasse um campo não mais de criação de novas formas, e sim de apropriação de formas já existentes que, assim como na reciclagem, se transmutam em algo diferente. “A pergunta artística não é mais ‘O que fazer de novidade’, e sim ‘O que fazer com isso?’”, afirma Bourriaud. É o mecanismo usado por DJs quando criam uma nova música a partir de pedaços de canções já existentes. “Os acervos se tornam lojas cheias de ferramentas para usar, manipular e reordenar”, diz o francês.</p>
<p style="text-align: justify;">Nem tudo nesse fenômeno necessariamente é positivo. “Eu me perturbo com o fato de Adele ser considerada uma das maiores artistas de nosso tempo”, diz Simon Reynolds. Ele se refere à cantora inglesa que, aos 23 anos, vendeu em 2011, no mundo todo, 17 milhões de discos de seu segundo álbum, 21. Lançado em janeiro do ano passado, o disco entrou para a lista dos mais vendidos em fevereiro e nunca mais saiu. Desde 2004 não havia um artista com tamanho sucesso comercial. “Ela tem o mesmo estilo musical com o qual Etta James <em>(cantora americana que morreu há duas semanas, famosa por hits como “At last”)</em> cantava 45 anos atrás. É deprimente”, diz Reynolds. No campo do desenho industrial, chama a atenção que alguns dos objetos mais inovadores dos últimos tempos tenham sido inspirados pelo pensamento estético de décadas passadas. O iPod e outros sucessos da Apple seguem os preceitos de Dieter Rams, designer alemão que, no fim dos anos 1950, revolucionou o projeto de eletrodomésticos com os produtos da marca Braun. Rams acreditava que a forma deve seguir a função e que o bom design é aquele que ajuda a entender o produto – não por acidente, os produtos da Apple são conhecidos por serem funcionais e autoexplicativos (alguns, como o iPod, lembram muito produtos antigos da Braun).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>CRISE DE IDENTIDADE</strong><br />
Para os psicanalistas, a onda retrô não é necessariamente saudável. “A insatisfação do ser humano é estrutural e não tem cura. Achar que o passado era melhor que o presente é uma fantasia”, diz o psicanalista Jorge Forbes, que foi aluno de Jacques Lacan (1901-1981). Seu argumento lembra o filme recente de Woody Allen, <em>Meia-noite em Paris</em>, em que personagens apaixonados pelo passado passeiam magicamente na Paris dos anos 1920. Eles acreditam que aquele período representou uma espécie de Idade de Ouro da humanidade. Forbes explica esse apego como expressão de um movimento reacionário. Ele acredita que as pessoas estão perdidas com a ausência de antigos padrões de comportamento, próprios do pós-modernismo. Lutaram pela liberdade de escolha e, quando ela chegou, muitos se acovardaram e preferiram repousar em padrões do passado. “Numa crise de identidade, é comum ir até o supermercado das identidades prêt-à-porter e vestir a máscara que estiver mais próxima”, diz Forbes. “Um estilo do passado é um disfarce pronto. Está tudo bem, desde que isso sirva apenas como um conforto provisório, de um momento de transição.”</p>
<p style="text-align: justify;">O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, autor de livros sobre a pós-modernidade como <em>Amor líquido</em>, disse a ÉPOCA que é hora de deixar de lado a presunção progressista de que a mudança histórica e a inovação cultural ocorrem de maneira sequencial. “Essa visão precisa ser trocada por um modelo pendular”, diz ele. Para ele, daqui em diante, cada uma das tendências pelas quais passamos, mais que um sinal de progressão ou regressão, serão projetos provisórios que rapidamente se tornarão insatisfatórios e precisarão ser substituídos. Bourriaud e Bauman concordam sobre o fato de que hoje a cultura não deve mais ser vista como uma cadeia em que um fato resulta em outro. Em vez disso, o mundo contemporâneo nos oferece a possibilidade de conhecer e viver diferentes acontecimentos culturais, simultaneamente. Sejam eles de ontem ou de hoje. E o futuro? Bem&#8230; Talvez em pouco tempo falar de cultura retrô seja também&#8230; coisa do passado.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2012/02/715_anos80_01.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-18192" title="715_anos80_01" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2012/02/715_anos80_01-236x300.jpg" alt="" width="236" height="300" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2012/02/715_anos80_02.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-18193" title="715_anos80_02" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2012/02/715_anos80_02-236x300.jpg" alt="" width="236" height="300" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">&#8211;</p>
<p style="text-align: justify;">Revista Época</p>
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		<title>Cultura é Poder</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Jan 2012 10:32:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ASCOM</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O que é Cultura? Qual a sua função pública? Existe uma relação direta entre cultura e desenvolvimento? Podemos pensar em sustentabilidade sem considerar a questão cultural? Pra que serve uma política cultural? Qual a sua relação com o mercado? Como o poder público pode intervir na dinâmica cultural de uma sociedade? Como o artista e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2012/01/poder-da-cultura_0.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-18124" title="poder da cultura_0" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2012/01/poder-da-cultura_0.jpg" alt="" width="100" height="100" /></a>O que é Cultura? Qual a sua função pública? Existe uma relação direta entre cultura e desenvolvimento? Podemos pensar em sustentabilidade sem considerar a questão cultural? Pra que serve uma política cultural? Qual a sua relação com o mercado? Como o poder público pode intervir na dinâmica cultural de uma sociedade? Como o artista e o agente cultural enfrentam os desafios da pós-modernidade?</p>
<p style="text-align: justify;">Entre as muitas respostas possíveis para essas questões, optei por buscar uma abordagem propositiva, que buscasse imaginar uma nova percepção da riqueza e importância da cultura como projeto humanista, que abarcasse também a sua dimensão individual, política e organizacional. Um ponto de partida para um projeto de nação, para o desenvolvimento social, para as oportunidades econômicas, mercados potentes, empresas inovadoras, brasileiros capazes, competentes e livres.</p>
<p style="text-align: justify;">A intenção é apresentar cultura como domínio, como campo de apropriação, pública ou privada, e seu manejo pelos diversos agentes sociais ao longo do nosso processo civilizatório.</p>
<p style="text-align: justify;">A ideia de cultura, sempre moldada conforme as visões políticas de cada tempo, detém em si as chaves dos sistemas de poder. Chaves que podem abrir portas para a liberdade, para a equidade e para o diálogo. Mas também podem fechá-las, cedendo ao controle, à discriminação e à intolerância.</p>
<p style="text-align: justify;">Da mesma forma que o poeta T.S.Eliot inter-relacionava cultura sob a ótica do indivíduo, de um grupo e de toda a sociedade, precisamos compreender cultura como um plasma invisível entrelaçado entre as dinâmicas sociais, ora como alimento da alma individual, ora como elemento gregário e político, que liga e significa as relações humanas. Perceber a presença desse plasma – ou seja, de uma matéria cultural altamente energizada, reativa e que permeia todo o espaço da sociedade – é fundamental para a compreensão dos fenômenos do nosso tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Cultura é algo complexo. Não se limita a uma perspectiva artística, econômica ou social. É a conjugação de todos esses vetores. Daí a sua importância como projeto de Estado e sua pertinência como investimento privado. Uma política cultural abrangente, contemporânea e democrática deve estar atenta às suas várias implicações e dimensões.</p>
<p style="text-align: justify;">A UNESCO, organismo das Nações Unidas destinada a questões de educação cultura e ciências, define cultura como “um conjunto de características distintas espirituais, materiais, intelectuais e afetivas que caracterizam uma sociedade ou um grupo social”. Esse entendimento abarca, além das artes e das letras, os modos de vida, os sistemas de valores, as tradições e as crenças.</p>
<p style="text-align: justify;">Sob a luz do conceito de cultura da entidade não seria absurdo classificar um filme publicitário ou merchandising como uma ação cultural. Não se trata do investimento no potencial criador do cidadão/consumidor, mas num determinado conjunto de comportamentos necessários a reforçar a ideia de incentivar ou potencializar determinação ação (consumo).</p>
<p style="text-align: justify;">A empresa age para seduzir, ou até mesmo impor, por meio de ação sistemática e repetida, sua “cultura”, seus valores e códigos. Ou seja, para consumir determinada marca de cigarro, automóvel, ou calça jeans, é preciso praticar, ou ao menos identificar-se, com determinados padrões de conduta.</p>
<p style="text-align: justify;">Levado às últimas consequências, esse sistema traduz-se num processo de aculturação, baseado na necessidade de destituir o sujeito de valores, referências e capacidades culturais intrínsecas, em busca de adesão a algo mais dinâmico, sedutor e com função gregária: o consumo.</p>
<p style="text-align: justify;">A jornalista canadense Naomi Klein aponta em seu livro-manifesto Sem Logo (2002) os riscos dessa associação. Ela apresenta o branding (mecanismos empresariais para criar a desenvolver marcas) como um processo cultural. A autora afirma que as marcas não são produtos, contudo, são responsáveis pela criação de conceitos, atitudes, valores e experiências. Portanto, “por que também não podem ser cultura?” Esse projeto tem sido tão bem sucedido que “os limites, entre os patrocinadores corporativos e a cultura patrocinada, desapareceram completamente”, questiona.</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo Klein (2002), embora “nem sempre seja a intenção original, o efeito do branding avançado é empurrar a cultura que a hospeda para o fundo do palco e fazer da marca a estrela. Isso não é patrocinar cultura, é ser cultura”.</p>
<p style="text-align: justify;">A serviço das instâncias de poder, sustentadas entre si, como nos dias de hoje, atuam os sistemas financeiro, governamental e de mídia. A arte assume uma preocupante função apaziguadora e definidora dos modos de vida e costumes. Joost Smiers, em Artes sob Pressão (2003), pergunta “onde os conglomerados culturais podem espalhar suas idéias sobre o que deve ser a arte, a questão crucial é: as histórias de quem estão sendo contadas? Por quem? Como são produzidas, disseminadas e recebidas?”</p>
<p style="text-align: justify;">Para Smiers (2003), as obras de arte tornaram-se veículos com mensagens comerciais e “têm a função de criar um ambiente no qual a produção do desejo possa acontecer. Esse contexto é freqüentemente cheio de violência”, diz.</p>
<p style="text-align: justify;">A indústria audiovisual e seu extremo poder de alcance, das salas de cinema aos lares de todo o planeta, por meio de DVDs, games e websites interativos, é o melhor exemplo disso, como aponta o Relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), de 2004, intitulado Liberdade Cultural num mundo diversificado. De acordo com o documento, o comércio mundial de bens culturais – cinema, fotografia, rádio e televisão, material impresso, literatura, música e artes visuais – quadruplicou, passando de 95 bilhões de dólares norte-americanos em 1980 para mais de 380 bilhões em 1998. Cerca de quatro quintos desses fluxos têm origem em 13 países.</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo o relatório, Hollywood atinge 2,6 bilhões de pessoas e Bollywood (indústria de cinema indiano) cerca de 3,6 bilhões. O domínio de Hollywood é apenas um dos aspectos da disseminação ocidental de consumo. “Novas tecnologias das comunicações por satélite deram lugar, na década de 1980, a um novo e poderoso meio de comunicação de alcance mundial e a redes mundiais de meios de comunicação como a CNN”. O número de aparelhos de televisão por mil habitantes mais do que duplicou em todo o mundo, passando de 113, em 1980, para 229, em 1995. Desde então, aumentou para 243.</p>
<p style="text-align: justify;">O resultado disso é a criação de um padrão de consumo global, com “adolescentes mundiais” compartilhando uma “única cultura pop mundial, absorvendo os mesmos vídeos e a mesma música e proporcionando um mercado enorme para tênis, t-shirts e jeans de marca”, afirma o relatório.</p>
<p style="text-align: justify;">Edgar Morin, em “Cultura e Barbárie Européias”, empresta de Teilhard de Chardin o termo “noosfera”, para designar o mundo das ideias, dos espíritos, dos deuses produzidos pelos seres humanos dentro de sua cultura. “Mesmo sendo produzidos pelo espírito humano, os deuses adquirem uma vida própria e o poder de dominar os espíritos”. Dessa forma, diz o filósofo, “a barbárie humana engendra deuses cruéis, que, por sua vez, incitam os seres humanos à barbárie. Nós modelamos os deuses que nos modelam”.</p>
<p style="text-align: justify;">Max Weber costumava dizer que o homem está preso a uma teia de significados que ele mesmo criou. Nesse sentido, assim como Geertz (1973), também podemos considerar cultura como um conjunto de mecanismos de controle para governar comportamentos. E a história recente exibe vários alertas de como as indústrias culturais e os meios de comunicação de massa podem ser grandes armas disponíveis para acomodar e disseminar determinados comportamentos. Assim fizeram o nazismo, o fascismo, o comunismo e as ditaduras militares, sobretudo as latino-americanas, nos exemplos extremos.</p>
<p style="text-align: justify;">Esse rastro está cada vez mais presente nas sociedades orientadas para o consumo. Em comum, a ausência do Estado em sua responsabilidade com a cultura e a diversidade; e o domínio marcante das indústrias culturais como ponta-de-lança para uma economia global centrada nas grandes corporações.</p>
<p style="text-align: justify;">A realidade desse cenário precisa ser encarada por toda a sociedade brasileira, que usufrui os benefícios dessa globalização econômica, mas ao mesmo tempo se expõe de maneira preocupante aos seus efeitos colaterais. O país corre risco de virar as costas ao seu grande potencial da produção cultural e sua vocação para o desenvolvimento de um poderoso mercado formado pelas próprias manifestações culturais.</p>
<p style="text-align: justify;">Cultura, nesse caso, funciona como uma chave capaz de trancar o indivíduo em torno de códigos e simbologias controladas: pelo Estado, por uma religião ou mesmo por corporações e através dos instrumentos gerados pela sociedade de consumo, como a publicidade, a promoção e o patrocínio cultural.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas essa mesma chave, que oprime o ser humano e desfaz sua subjetividade, tem o poder de abrir as portas, permitindo ao indivíduo compreender a si e aos fenômenos da sociedade e do seu próprio estágio civilizatório, em busca da liberdade. Para isso, basta girá-la para o lado oposto.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Dialética da Colonização (1992), Alfredo Bosi define cultura como o &#8220;conjunto das práticas, das técnicas, dos símbolos e dos valores que se devem transmitir às novas gerações para garantir a reprodução de um estado de coexistência social”. E supõe uma “consciência grupal operosa e operante que desentranha da vida presente os planos para o futuro”.</p>
<p style="text-align: justify;">A cultura cumpre nesse caso uma função pouco reconhecida e estimulada nesses tempos: transformar realidades sociais e contribuir para o desenvolvimento humano em todos os seus aspectos. Algo que identifica o indivíduo em seu espaço, lugar, época, tornando-o capaz de sociabilizar e formar espírito crítico.</p>
<p style="text-align: justify;">Origens e dimensões da palavra Cultura</p>
<p style="text-align: justify;">Raymond Williams, autor de Palavras-chave (2007), considera a palavra culture como uma das duas ou três mais complicadas da língua inglesa, devido ao seu complexo percurso etimológico.</p>
<p style="text-align: justify;">Em sua acepção mais longínqua, a matriz latina colere trazia o significado de cultivar, habitar, proteger e honrar com veneração. Desse radical, podemos reconhecer pelo menos dois desdobramentos: colonus, que traz a idéia de habitação e cultus, que nos remete a “cultivo ou cuidado”, bem como seus significados medievais subsidiários: “honra, adoração”, já “convergidos pela radicalização do temor divino e da moral na sociedade – personificação do Senhor no feudo”. Mas também couture, no francês antigo, por exemplo, associados à “lavoura, cuidado com o crescimento natural”.</p>
<p style="text-align: justify;">Dos séculos XVI ao XVII, segundo Williams, o termo passou a significar, por analogia, o cuidado com o desenvolvimento humano e o cultivo das mentes, deixando de se tratar apenas da terra e dos animais. Desde já destacando uma distinção arbitrária entre os que têm cultura dos que não têm, o termo assume o caráter de civilidade. Com a expansão da Europa e seu conseqüente processo de dominação política e econômica, o poder de distinção entre o culto e o não-culto foi de grande valia para implementar e manter o colonialismo.</p>
<p style="text-align: justify;">A partir dos séculos XVIII e XIX, o conceito passa a ser utilizado para designar o próprio estágio civilizatório da humanidade. Johann Gottfried von Herder escreveu Sobre a filosofia da história para a educação da humanidade (1784-91): “Nada é mais indeterminado que essa palavra e nada mais enganoso que sua aplicação a todas as nações e a todos os períodos”. Argumentava que era necessário grifar culturas, no plural, pois elas são específicas e variáveis em diferentes nações e períodos, tanto quanto em relação a grupo sociais e econômicos dentro de uma nação.</p>
<p style="text-align: justify;">Para Williams, podemos reconhecer três categorias amplas e ativas de uso do termo: o processo de desenvolvimento intelectual, espiritual e estético; a referência a um povo, um período, um grupo ou da humanidade em geral; as obras e as práticas da atividade intelectual, particularmente a artística, sendo este último o seu sentido mais difundido: “cultura é música, literatura, pintura, escultura, teatro e cinema”.</p>
<p style="text-align: justify;">Já o pensador Edgar Morin atribui três dimensões interdependentes à palavra cultura: a antropológica, ou “tudo aquilo que é construído socialmente e que os indivíduos aprendem”; a social e histórica, que pode ser entendida como o “conjunto de hábitos, costumes, crenças, idéias, valores, mitos que se perpetuam de geração em geração” e a relacionada às humanidades, que “abrange as artes, as letras e a filosofia”.</p>
<p style="text-align: justify;">Para Terry Eagleton, no indispensável A ideia de cultura (2002), as palavras civilização e cultura continuam até hoje a intercambiar-se em seu uso e significado, sobretudo por antropólogos: “cultura é agora também quase o oposto de civilidade”. Eagleton (2002) considera curioso que o termo hoje se aplique mais à compreensão de formas de vida “selvagens” do que para civilizados. “Mas se ‘cultura’ pode descrever uma ordem social ‘primitiva’, também pode fornecer a alguém um modo de idealizar a sua própria.</p>
<p style="text-align: justify;">Tanto para definir algo de domínio próprio de um indivíduo (o conhecimento adquirido) quanto para o exercício de poder em relação a grupos sociais distintos (o culto e o não culto, o civilizado e o não civilizado), o termo é utilizado até hoje como definidor de um campo simbólico determinado, quase sempre para distinguir ou identificar.</p>
<p style="text-align: justify;">Ações e políticas culturais, constituídas nos campos público e privado, exercem, inevitavelmente, esse domínio. Como provedor de acesso a conteúdos, processos e dinâmicas, aguça o espírito crítico e permite a apropriação, o empoderamento e o protagonismo do cidadão.</p>
<p style="text-align: justify;">Por outro lado, a cultura adquire, cada vez mais, sua corporificação como ente econômico e instrumento de lazer e entretenimento. Manuseadas por sociedades contaminadas por um modo de pensar linear e cartesiano, condicionadas a analisar todos os fenômenos por uma correlação de causa-efeito, deixa de ser essa matéria que significa e transforma as relações, para ser mera atividade econômica, estratégica por sua grande capacidade de gerar recursos, postos de trabalho e economia de escala, por meio de exploração de propriedade intelectual.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma fórmula que exige difusão em massa para ser economicamente eficaz. E conteúdos de fácil assimilação, para ampliar sua capacidade de inserção mercadológica. Essa fórmula geralmente exclui diálogos mais profundos e complexos, desconectando-se de suas raízes culturais e das dinâmicas locais. Com formatos cada vez mais repetitivos e pasteurizados, são mais afeitas a uma cultura homogênea, linear, uníssona, voltada ao consumo.</p>
<p style="text-align: justify;">A falta de dispositivos claros e efetivos para lidar com esse campo simbólico configura-se como uma das mais graves doenças das sociedades contemporâneas.</p>
<p style="text-align: justify;">* Texto extraído do livro O Poder da Cultura, de Leonardo Brant (editora Peirópolis, 2009)<br />
** O curso O Poder da Cultura será realizado nos dias 24 e 25 de março de 2012 e tem inscrições abertas pelo Cemec: <a title="http://redecemec.com/curso/o-poder-da-cultura" href="http://redecemec.com/curso/o-poder-da-cultura" target="_blank">http://redecemec.com/curso/o-poder-da-cultura</a></p>
<p style="text-align: justify;">&#8211;</p>
<p style="text-align: justify;">CEMEC</p>
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		<title>Um novo tempo para a música brasileira</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Jan 2012 15:20:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ASCOM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos & Afins]]></category>

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		<description><![CDATA[A Proposta de Emenda à Constituição 98/2007 – também conhecida como PEC da Música – está em processo de aprovação no Congresso Nacional. Trata-se de uma demanda dos profissionais da música – intérpretes, compositores, músicos, técnicos e produtores – em resposta às assimetrias tributárias existentes no Brasil no setor musical.
A primeira assimetria diz respeito ao [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A Proposta de Emenda à Constituição 98/2007 – também conhecida como PEC da Música – está em processo de aprovação no Congresso Nacional. Trata-se de uma demanda dos profissionais da música – intérpretes, compositores, músicos, técnicos e produtores – em resposta às assimetrias tributárias existentes no Brasil no setor musical.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2012/01/3818742276_af9960d642_m-150x150.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-18027" title="3818742276_af9960d642_m-150x150" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2012/01/3818742276_af9960d642_m-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>A primeira assimetria diz respeito ao tratamento desigual de bens culturais: enquanto livros, periódicos, revistas e jornais são imunes de impostos, CDs e DVDs sofrem uma pesada tributação. Sendo ambos veículos que fazem circular cultura pelo país, tal discriminação não se justifica.</p>
<p style="text-align: justify;">Um segundo aspecto relevante diz respeito à incidência de impostos dentro do próprio setor. Em razão de particularidades brasileiras, a produção nacional tem tratamento tributário desfavorável se comparada a grandes produções internacionais. Expressões importantes da nossa cultura produzidas localmente, como a de música folclórica e a de música instrumental, por exemplo, pagam no Brasil mais impostos que discos do Black Eyed Peas.</p>
<p style="text-align: justify;">O que causa tal distorção é a combinação  de uma legislação tributária ultrapassada com um modelo econômico concentrador. Neste modelo, as grandes fábricas que produzem CDs e DVDs, instaladas na Zona Franca de Manaus, tornaram-se também grandes distribuidores de produtos fonográficos. Extrapolando sua atuação na indústria, tais empresas passaram a comercializar diretamente os produtos gravados, deflagrando um quadro em que os papéis de fornecedor e concorrente comercial se confundem. Uma situação concorrencial ‘sui generes’, para dizer o mínimo. Além disso, graças a um benefício fiscal extra concedido pelo governo do Amazonas, estas indústrias ainda recuperam impostos pago pelos seus clientes de outros estados, agravando as desigualdades.</p>
<p style="text-align: justify;">Do outro lado, os produtores nacionais, espalhados por todo o país, batem-se contra uma carga tributária esmagadora. Responsáveis conjuntamente por mais lançamentos que as multinacionais do disco em seu conjunto, os produtores independentes enfrentam dificuldades para fazer circular sua produção. A exigência do pagamento antecipado de impostos (ICMS – substituição tributária) engessa de tal modo a circulação das produção locais que, se um produtor independente emplacasse um sucesso nacional, ele quebraria em razão dos impostos a pagar, antes mesmo de receber um centavo pelas vendas. Em outras palavras, o modelo tributário vigente desestimula a cadeia produtiva independente formal, justamente aquela com maior potencial de geração de emprego, renda e diversidade.</p>
<p style="text-align: justify;">A aprovação da PEC da Música acaba com esta situação esdrúxula, estimulando a atuação de produtores em todo o país. Veja abaixo o teor do texto aprovado (alínea ‘e’):</p>
<p style="text-align: justify;">“Art. 150 – Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:<br />
(…)<br />
VI – instituir impostos sobre:<br />
(…)<br />
e) “Fonogramas e Videofonogramas musicais produzidos no Brasil, contendo obras musicais ou lítero-musicais de autores brasileiros, e/ou obras em geral interpretadas por artistas brasileiros, bem como os suportes materiais ou arquivos digitais que os contenham, salvo na etapa de replicação industrial de mídias ópticas de leitura a laser”.</p>
<p style="text-align: justify;">Como se percebe, o texto preserva a vantagem competitiva da Zona Franca no que diz respeito à industrialização de mídias digitais, mas equipara os produtores de todos os Estados no que se refere à circulação da produção.  Concluímos então que, para além das questões tributárias, a emenda contribui enormemente para a preservação da diversidade cultural brasileira.  Além disso, ao incluir os arquivos digitais, a proposta também mostra sintonia com os novos tempos da internet e  das redes sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">Aproveitamos aqui a oportunidade para comentar o texto de autoria do Presidente da OAB-RJ, Wadih Damous, publicado no Jornal O Globo (6 de janeiro de 2012), sobre a PEC. Em seu artigo, Damous expressa apoio à aprovação da proposta, mas revela preocupações quanto a aspectos não alcançados por ela, como o da remuneração digna dos músicos brasileiros, dos contratos leoninos praticados por algumas gravadoras e a questão da distribuição de direitos autorais.</p>
<p style="text-align: justify;">Realmente, a PEC 98/2007 não possui o condão de resolver todos os problemas do setor. Podemos apontar uma extensa Pauta da Cultura, ainda longe de ser resolvida, como a aprovação do Vale-Cultura, as reformas das leis Rouanet e a de Direitos Autorais, a questão da meia entrada, os direitos trabalhistas, sociais e previdenciários dos profissionais da música (aqui incluídos os trabalhadores técnicos), a questão da remuneração na internet, os problemas enfrentados no transporte aéreo instrumentos musicais, etc, etc, etc.  Será preciso muito empenho do governo e a participação de toda a sociedade para cuidar satisfatoriamente desta extensa e importante pauta.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a expressiva votação alcançada em 13 de dezembro de 2011, na aprovação em segundo turno da PEC da Música na Câmara dos Deputados (393 votos a favor e apenas 06 contra), demonstra o claro entendimento de que os problemas precisam ser enfrentados. Afinal, entre as funções precípuas do Estado brasileiro, inclui-se a preservação de nossa diversidade cultural e o incentivo à produção criativa, em todas as regiões do país.</p>
<p style="text-align: justify;">A Economia da Cultura, para além de seu aspecto econômico, é fundamental por seu viés simbólico, moldando o traço distintivo de nossa sociedade perante o mundo. O Brasil atravessará nos próximos anos um período inaudito de desenvolvimento e protagonismo no cenário internacional. Neste sentido, a aprovação da PEC 98/2007 representa um avanço decisivo no fortalecimento de nossa identidade brasileira, em toda sua diversidade, criatividade e excelência técnica.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>*Artigo escrito com Felipe Radicetti, Vice-Presidente da MusimagemBrasil</em></p>
<p><em>&#8211;</em></p>
<p>Cultura e Mercado</p>
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		<title>Cultura: do pensamento para o entretenimento</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Dec 2011 16:22:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ASCOM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos & Afins]]></category>

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		<description><![CDATA[Nada mais desprezível e repetitivo do que certas falas sobre cultura que jorram nos congressos, seminários, na mídia, hoje em dia. A impressão é que houve uma perda da capacidade de produzir pensamento e a ausência de platéias seduzidas pela reflexão. Não se interroga a produção simbólica, faz-se reivindicações, relatos, comentários para animar um auditório [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Nada mais desprezível e repetitivo do que certas falas sobre cultura que jorram nos congressos, seminários, na mídia, hoje em dia. A impressão é que houve uma perda da capacidade de produzir pensamento e a ausência de platéias seduzidas pela reflexão. Não se interroga a produção simbólica, faz-se reivindicações, relatos, comentários para animar um auditório acostumado ao olhar da televisão. Se algum dia na história, o filósofo, o intelectual, o crítico, o artista, o poeta ocupavam o lugar privilegiado de formar opinião, hoje, esse lugar é ocupado pelo produtor, o empresário cultural, o profissional de marketing. E a cultura é vista apenas como um agente de estímulo da economia de uma sociedade em declínio.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/12/3205277810_8283a3e4b5_m.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-17929" title="3205277810_8283a3e4b5_m" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/12/3205277810_8283a3e4b5_m.jpg" alt="" width="240" height="160" /></a>O discurso fica na superficialidade. Que a cultura é um bem de consumo, ninguém duvida, gera emprego, garante retornos significativos para a economia de uma cidade. Mas os profissionais do marketing, os políticos e os empresários ignoram na cultura a sua lógica: a do sentido, que ela é uma dimensão da existência do homem. “O que chamamos ‘cultura’, portanto é a ciência e a consciência com que o homem ocupa o espaço e o tempo de sua morada histórica. E o homem culto é aquele que cultiva essa ciência e essa consciência.” (Gerardo Mello Mourão). A cultura é um conjunto de práticas por onde transitam uma autonomia, a experiência de uma saber e uma política específica. O patrocínio, que substituiu o antigo mecenato, reduziu os problemas da cultura às leis da economia e o poder do patrocinador acabou decidindo sobre padrões estéticos ou linguagens. Há uma valorização arbitrária de um produto cultural em detrimento de outro e a divulgação fica submetida a um jogo de poder de quem manipula direta ou indiretamente com os mídias e o mercado.</p>
<p style="text-align: justify;">Somente com talento e invenção é difícil competir no mercado. Os profissionais que ganharam celebridade através do marketing cultural animam o espetáculo que faz da cultura um supermercado de entretenimentos. “Nos meios de comunicação, a confusão que se estabelece entre o princípio tradicional de celebridade baseado nas obras, e o princípio midiático baseado na visibilidade da mídia é cada vez maior.” (Pierre Bourdieu). A cultura passa a ser apenas o que ela representa no campo da economia e da diversão. Enquanto se discute as leis de incentivo à cultura, não se discute a idéia de cultura e as instituições culturais não cumprem o papel de difundir um princípio de cidadania cultural. Uma política cultural indecisa, calcada em princípios pouco profissionais que desprezam ou desconhecem o fazer e suas materialidades específicas. E sem trabalhos, sem críticas, sem um suporte que sustente a formação e a divulgação da informação não vamos construir nenhuma credibilidade cultural. “A arte age e continuará a agir sobre nós enquanto houver obras de arte” (Merleau-Ponty). E não discursos sobre as obras.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma cidade, um Estado, um País passam a ter uma existência cultural e conquistam um reconhecimento no futuro quando aprendem a respeitar seus artistas e intelectuais, quando aprendem a conviver e garantir as disparidades culturais. Entendemos que as instituições culturais como fundações, universidades, museus etc. têm um papel importante a cumprir na produção e divulgação da informação dos produtos artísticos acima de compromissos pessoais e políticos que ignoram a natureza das linguagens artísticas. “No curso de grandes períodos históricos, juntamente com o modo de existência das comunidades humanas, modifica-se também seu modo de existir e perceber” (Walter Benjamin). A produção cultural participa dessas mudanças com a tarefa de transformar a realidade dentro de um território determinado da sociedade e do pensar onde a cultura age.</p>
<p>&#8211;</p>
<p>Cultura e Mercado</p>
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		<title>Lei Rouanet inflaciona mercado e preços de ingressos vão às alturas</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Dec 2011 16:13:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ASCOM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos & Afins]]></category>

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		<description><![CDATA[O fracasso da turnê de 80 anos de João Gilberto reforça a tese: nem um dos maiores artistas brasileiros sobrevive hoje sem recursos públicos das leis de incentivo à cultura.
Anunciada há seis meses e cancelada na semana passada, a série de shows não fazia uso da Lei Rouanet para captar recursos (ela permite que patrocinadores abatam do imposto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O fracasso da turnê de 80 anos de João Gilberto reforça a tese: nem um dos maiores artistas brasileiros sobrevive hoje sem recursos públicos das leis de incentivo à cultura.</p>
<p style="text-align: justify;">Anunciada há seis meses e cancelada na semana passada, a série de shows não fazia uso da Lei Rouanet para captar recursos (ela permite que patrocinadores abatam do imposto parte do dinheiro investido em cultura).</p>
<p style="text-align: justify;">Os produtores afirmaram que tentaram convencer mais de cem empresas a investir na turnê. Em vão. Decidiram retirar da bilheteria todo o dinheiro para cobrir os custos. E também seus lucros.</p>
<p style="text-align: justify;">O preço dos ingressos foi às alturas -de R$ 500 a R$ 1.400. Resultado: boa parte encalhou. Shows foram adiados -a assessoria afirmou que o cantor estava gripado.</p>
<p style="text-align: justify;">Na última hora, os Correios toparam investir R$ 300 mil nas apresentações do Rio e de SP. Pouco. E tarde demais.</p>
<p style="text-align: justify;">
<div class="mceTemp mceIEcenter" style="text-align: justify;">
<dl id="attachment_17924" class="wp-caption aligncenter" style="width: 560px;">
<dt class="wp-caption-dt"><a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/12/11352387.jpeg"><img class="size-full wp-image-17924" title="11352387" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/12/11352387.jpeg" alt="" width="550" height="716" /></a></dt>
<dd class="wp-caption-dd">João Gilberto se apresenta com banquinho e violão no auditório do Ibirapuera em SP, em 2008. Tuca Vieira/Folhapress</dd>
</dl>
</div>
<p style="text-align: justify;">Segundo artistas e produtores, hoje não é mais possível sobreviver sem incentivo.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Se não uso a Rouanet, não consigo patrocínio. De cada dez empresas, sete perguntam de cara: tem lei de incentivo?&#8221;, fala Flora Gil, empresária e mulher de Gilberto Gil. &#8220;Posso fazer show sem patrocínio? Posso. Mas o preço dos ingressos vai subir.&#8221;</p>
<p style="text-align: justify;">Flora Gil diz que, para o artista, seria mais confortável se o mercado funcionasse sem o dinheiro das empresas.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;O artista teria que se alinhar apenas com ele mesmo -não com uma marca. Não precisaria ir a reuniões e mais reuniões, nem citar o patrocinador em entrevistas. Mas, sem esse dinheiro, hoje, os projetos são inviáveis.&#8221;</p>
<p style="text-align: justify;">Chico Buarque é um dos poucos que resistem: ele não usa o dinheiro público da renúncia fiscal. Até há pouco, era até mais radical: não buscava nem mesmo patrocínio de empresas para os shows.</p>
<p style="text-align: justify;">Em 2006, cedeu em parte: sua turnê foi bancada pela TIM -mas sem incentivo. Neste ano, seguradoras financiam suas apresentações.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Até o fim dos anos 90, com o mercado fonográfico ainda vivendo a exuberância de seus anos dourados, nos contratos dos principais artistas com suas respectivas gravadoras havia uma cláusula denominada &#8216;tour support&#8217;&#8221;, verba que financiava parte da turnê de lançamento dos discos, diz Vinicius França, empresário de Chico.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Colocava-se uma produção de pé e os shows estreavam com suas contas praticamente zeradas.&#8221; Com o declínio do mercado fonográfico, a verba deixou de existir.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>MAIS CARO</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Os custos de produção, por outro lado, subiram, &#8220;incluindo profissionais e equipamentos cada vez mais sofisticados&#8221;, diz França. &#8220;Hoje é virtualmente impossível para quem pretende fazer longa turnê de qualidade assumir sozinho esses custos.&#8221;</p>
<p style="text-align: justify;">Marisa Monte, outro caso raro, também conseguiu &#8220;dinheiro bom&#8221;, do marketing das empresas, sem renúncia, para uma turnê. Em 2006, foi bancada pela Natura, uma das poucas empresas que investem ao menos parte em cultura sem renúncia fiscal.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste ano, representantes de Marisa procuraram a empresa. Mas, em 2012, a companhia só investirá em projetos do Natura Musical, mais baratos e incentivados. São R$ 1,5 milhão em seis projetos. A turnê anterior dela foi estimada em R$ 5 milhões.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>ESTRATOSFERA</strong></p>
<p style="text-align: justify;">No passado, espetáculos se bancavam com a receita da bilheteria -e o público não tinha que dar as calças em troca da entrada de um show ou teatro, como ocorreu agora no caso de João Gilberto.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas as leis de incentivo inundaram o mercado de dinheiro e inflaram os preços da produção cultural.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Quando sabem que você tem Rouanet, o preço das coisas vai para a estratosfera&#8221;, diz o ator Juca de Oliveira.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Os custos sobem pela pressuposição de que seu espetáculo tem apoio, e, portanto, dinheiro. Então [os prestadores de serviço] sobem o preço. Os financiamentos elevaram todos os custos, sobretudo de divulgação.&#8221;</p>
<p style="text-align: justify;">Juca estava tentando montar, &#8220;a sangue frio&#8221;, ou seja, sem leis de incentivo, um espetáculo baseado num livro de Lya Luft. &#8220;Eu ia mendigar a divulgação por aí.&#8221;</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;E, como se não bastasse, o Brasil é imenso. Sem avião não se chega a lugar nenhum. Calcule o custo de uma peça com apenas dois atores, equipe de luz, som e produção, junte a alimentação, transporte e o hotel; a bilheteria não cobre de jeito nenhum&#8221;, diz a atriz e colunista da Folha Fernanda Torres.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>SHAKESPEARE</strong></p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Antigamente, os artistas faziam uma cooperativa e ganhavam um percentual da bilheteria. E aí se fazia permuta de madeira, de roupa, a produção era extremamente barata. Ou pelo menos palatável&#8221;, diz Juca de Oliveira.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Vamos ter que voltar a discutir o tema. Não faz sentido que apenas pessoas que têm patrocínio possam fazer teatro. Fica tudo desesperadamente pobre.&#8221;</p>
<p style="text-align: justify;">Ele diz que hoje os produtores captam recursos pela Lei Rouanet -e tiram o espetáculo de cartaz quando esse dinheiro acaba, mesmo que esteja fazendo sucesso.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Antigamente, se a peça lotava, ficava anos no teatro&#8221;, diz o ator, que ficou seis anos em cartaz com o espetáculo &#8220;Meno Male&#8221;, quatro com &#8220;Caixa Dois&#8221; e cinco com &#8220;Hotel Paradiso.&#8221;</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Gosto de viver da bilheteria, como Shakespeare, com os dois olhos na máquina registradora. E hoje as pessoas vivem do dinheiro da lei.&#8221;</p>
<p style="text-align: justify;">Fernanda lembra que empresas acabam &#8220;editando&#8221; a arte conforme a conveniência do marketing. Cita mostra da americana Nan Goldin, censurada no Oi Futuro (Rio).</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;O mundo corporativo não comporta a vida mundana, apaixonada, torta e nada exemplar de Goldin&#8221;, diz.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Entregar a cultura nas mãos do marketing ou no retorno da bilheteria não funciona inteiramente, o governo e a sociedade têm de se envolver. A arte, na maior parte do tempo, é uma atividade que opera no vermelho.&#8221;</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211;</p>
<p style="text-align: justify;">Folha de São Paulo</p>
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		<title>Cultura: mercadoria ou bem comum?</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Dec 2011 12:45:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ASCOM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos & Afins]]></category>

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		<description><![CDATA[Todo o programa neoliberal, assim como o diagnóstico que levou a ele, pode ser sintetizado em um ponto: desregulamentar. O diagnóstico de por que a economia tinha parado de crescer, depois do ciclo mais longo de expansão capitalista no segundo pos-guerra, se centrou no suposto excesso de regulamentação. O capital se sentiria inibido para investir, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Todo o programa neoliberal, assim como o diagnóstico que levou a ele, pode ser sintetizado em um ponto: desregulamentar. O diagnóstico de por que a economia tinha parado de crescer, depois do ciclo mais longo de expansão capitalista no segundo pos-guerra, se centrou no suposto excesso de regulamentação. O capital se sentiria inibido para investir, por estar cerceado por excesso de normas, leis, políticas, que bloqueariam a “livre circulação do capital”.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/12/mercadoria.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-17838" title="mercadoria" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/12/mercadoria.jpg" alt="" width="233" height="216" /></a>Chegado ao governo, o neoliberalismo se pôs a privatizar patrimônio público, a diminuir o tamanho do Estado, a abrir as economias nacionais ao mercado internacional, a “flexibilizar” as relações de trabalho, entre tantas outras medidas padrão codificadas no chamado Consenso de Washington e colocadas em prática por governos às vezes com origens ideológicas distintas, mas todos rendidos ao “pensamento único”. Todas elas são formas de desregulamentação, de retiradas de supostos obstáculos à circulação do capital.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando se privatizam empresas, se está levantando obstáculos para que o capital privado se aproprie delas, se está desregulamentando o mercado de propriedade de empresas. Quando se aceita a não obediência a normas básicas da legislação do trabalho para contratar trabalhadores, se está desregulamentando o mercado de trabalho. Assim para todas as medidas do receituário neoliberal.</p>
<p style="text-align: justify;">Promoveu-se assim, rapidamente, o maior processo de concentração de riqueza que tínhamos conhecido, tanto a nível nacional, quanto mundial. Sem proteções dos Estados, os mais frágeis, os mais pobres – a grande maioria de cada sociedade, em especial as periféricas, – se viram indefesos diante das ofensivas do capital e dos Estados centrais do capitalismo.</p>
<p style="text-align: justify;">Direitos, como aqueles à educação e à saúde, foram deixando de ser direitos para se transformar em mercadorias, compráveis no mercado. Quem tem mais recursos, compra mais e melhor, em detrimento de quem não tem. Riquezas naturais, como a água passaram a ser mercadoras, compradas e vendidas.</p>
<p style="text-align: justify;">O Estado, principalmente nas suas funções reguladoras – de afirmação dos direitos contra a voracidade do capital – passou a ser vítima privilegiada dos ataques neoliberais, pregando-se o “Estado mínimo” e a primazia do mercado, isto é, da concorrência feroz, em que os mais fortes e mais ricos ganham sempre.</p>
<p style="text-align: justify;">Até a cultura foi vítima de um grande embate, para definir se se trata de uma mercadoria mais ou de um bem comum. Do ponto de vista institucional o debate se deu para definir se a cultura deveria ser objeto da Organização Mundial do Comércio (OMC) e, portanto, uma mercadoria a mais, ou no âmbito da Unesco, considerada como patrimônio da humanidade, como bem comum, com as devidas proteções. Terminou triunfando esta segunda versão – apesar da brutal oposição e pressão dos EUA, que chegaram a se retirar da Unesco.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi um momento muito importante de resistência ao neoliberalismo, que queria reduzir também a capacidade de cada povo, de cada nação, de cada setor da sociedade, de afirmar suas identidades específicas, dissolvidas pela globalização. Queriam desregulamentar também a cultura, deixá-la ao sabor das relações de mercado, sem proteção de regulações estatais.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o embate não terminou por aí, porque o poder avassalador dos capitais privados, nacionais e internacionais, é um fluxo permanente, cotidiano, buscando expandir seu poder de mercantilização. As TVs públicas, por exemplo, se debilitam no seu papel diferenciado dos mecanismos de mercado que regem as TVs privadas, enfraquecidas pela falta de financiamento, apelam ao mercado e induzem seus mecanismos – como aconteceu tristemente com a TV Cultura de São Paulo.</p>
<p style="text-align: justify;">Programas como o de Pontos de Cultura, do MINC, surgiram na contramão dessa lógica homogeneizadora da globalização na esfera cultural, buscando incentivar e proteger todas as formas de diversidade de cultural, de afirmação da heterogeneidade das identidades de setores sociais, étnicos, regionais, diferenciados.</p>
<p style="text-align: justify;">Muitos outros debates atuais hoje no Brasil – o dos Commons, da propriedade intelectual, dos direitos de autor – são também objeto de duas concepções diferenciadas, uma regulamentadora – anti-neoiberal – outra desregulamentadora, neoliberal, mercantilizadora. No marco mais geral do embate entre neoliberalismo e posneoliberalismo, é que a natureza das posições fica mais clara. Por um lado, as normas protetoras que consideram a cultura como um bem comum, de outro, a desregulamentação, que a consideram uma mercadoria como outra qualquer. Do seu desenlace depende a natureza da cultura no Brasil na segunda metade do século XXI.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211;</p>
<p style="text-align: justify;">Brasil Cultura</p>
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		<title>Hiper-realismo feminista</title>
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		<pubDate>Tue, 29 Nov 2011 11:43:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ASCOM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos & Afins]]></category>

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		<description><![CDATA[Parecem fotografias, mas são pinturas. Esta é a primeira e mais impressionante informação, que você precisa saber, sobre a artista Ana Teresa Fernandez.
Natural da cidade mexicana de Tampico e atualmente vivendo nos Estados Unidos, as obras de Ana Teresa fazem crítica ao papel social feminino e representam diferentes atividades que seriam (supostamente) funções da mulher.
A [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Parecem fotografias, mas são pinturas. Esta é a primeira e mais impressionante informação, que você precisa saber, sobre a artista Ana Teresa Fernandez.</p>
<p style="text-align: justify;">Natural da cidade mexicana de Tampico e atualmente vivendo nos Estados Unidos, as obras de Ana Teresa fazem crítica ao papel social feminino e representam diferentes atividades que seriam (supostamente) funções da mulher.</p>
<p style="text-align: justify;">A artista toca ainda na ubiquidade ‘dama na mesa, puta na cama’ – expressão ouvida em sua adolescência e que a marcou pela violência, preconceito e complexidade –, sem risco de ser chata ou radical.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/fernandez-15-lg.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-17669" title="fernandez-15-lg" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/fernandez-15-lg.jpg" alt="" width="680" height="740" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/AnaTeresaFernandez1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-17670" title="AnaTeresaFernandez1" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/AnaTeresaFernandez1.jpg" alt="" width="680" height="568" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/fernandez-12-lg.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-17671" title="fernandez-12-lg" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/fernandez-12-lg.jpg" alt="" width="680" height="498" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/fernandez-11-lg.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-17672" title="fernandez-11-lg" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/fernandez-11-lg.jpg" alt="" width="680" height="853" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/fernandez-13-lg.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-17673" title="fernandez-13-lg" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/fernandez-13-lg.jpg" alt="" width="680" height="549" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/fernandez-05-lg.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-17674" title="fernandez-05-lg" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/fernandez-05-lg.jpg" alt="" width="680" height="491" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/fernandez-10-lg.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-17675" title="fernandez-10-lg" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/fernandez-10-lg.jpg" alt="" width="680" height="541" /></a></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/fernandez-01-lg.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-17676" title="fernandez-01-lg" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/fernandez-01-lg.jpg" alt="" width="680" height="450" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">&#8211;</p>
<p style="text-align: justify;">Zupi</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Cultura dos editais – O remédio amargo dos artistas</title>
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		<pubDate>Mon, 21 Nov 2011 12:50:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ASCOM</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O artista que passa o tempo recluso na solidão do atelier, trabalhando, desenvolvendo sua experiência estética, como um operário da linguagem e do pensamento, está em extinção. É coisa de museu. Ou melhor, é raridade nos museus de arte, hoje em dia, que estão deixando de ser instituições de referência da memória para servir de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O artista que passa o tempo recluso na solidão do atelier, trabalhando, desenvolvendo sua experiência estética, como um operário da linguagem e do pensamento, está em extinção. É coisa de museu. Ou melhor, é raridade nos museus de arte, hoje em dia, que estão deixando de ser instituições de referência da memória para servir de cenários para legitimação do espetáculo. Às vezes com míseros recursos que ficamos até sem saber, quando deparamos com baldes e bacias nessas instituições, se são para amparar a pingueira do telhado ou se trata de uma instalação, contemplada por um edital para aquisição de obras contemporâneas. O que interessa na politica cultural nem sempre é a arte e a cultura, e sim, o glamour. Em nome da arte contemporânea faz-se qualquer coisa que dê visibilidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/4263342773_1e7f5748b3_m-150x150.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-17579" title="4263342773_1e7f5748b3_m-150x150" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/4263342773_1e7f5748b3_m-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a>As políticas públicas foram relegadas às leis de incentivo à cultura e aos editais públicos. Nunca se fez tanto editais neste País, como atualmente, para no fim fazer da arte um suplemento cultural, o bolo da noiva na festa de casamento. Na fala do filósofo alemão Theodor Adorno: “As obras de arte que se apresentam sem resíduo à reflexão e ao pensamento não são obras de arte”. Do ponto de vista da reflexão, do pensamento e do conhecimento, a cultura não é prioridade. Na política dos museus, o objeto já não é mais o museu que se multiplicou, juntamente com os chamados centros culturais, nos últimos anos. Com vaidade de supermercado, na maioria das vezes eles disponibilizam produtos perecíveis, novidades com prazo de validade, para estimular o consumo vetor de aquecimento da economia. A qualificação ficou no papel, na publicidade do concurso.</p>
<p style="text-align: justify;">Esses editais que bancam a cultura são iniciativas que vem ganhando força. Mostram ser um processo de seleção com regras claras para administrar o repasse de recursos, muito bem vendido na mídia, como um método de democratizar o acesso e a distribuição de recursos para as práticas culturais. Mas nem tão democrático assim. Podem ser um instrumento possível e eficiente em certos casos, mas não é a solução, é possível funcionar também, como escudo para dissimular responsabilidades pela produção, preservação e segurança do patrimônio cultural. Considerando-se ainda a contratação de consultorias, funcionários, despesas de divulgação, inscrição, o trabalho árduo e apressado de seleção , é um custo considerável, em último caso, gera serviços e renda.</p>
<p style="text-align: justify;">O artista contemporâneo deixa de ser artista para ser proponente, empresário cultural, captador de recursos, um especialista na área de elaboração de projeto, com conhecimentos indispensáveis de processo público e interpretação de leis. Dedica grande parte de seu tempo nesse processo burocrático de elaboração e execução de projeto, prestação de contas, contaminado pela lógica do marketing, incompatível para o artista que aposta na arte como uma opção de vida e meio de conhecimento que exige uma dedicação exclusiva. Ou então, ele fica à mercê de uma produtora cultural, para quem essa política de editais e fomento à cultura é um excelente negócio.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma coisa é preocupante, se essa política de editais se estender até a sucateada área da saúde. Imaginem uma seleção pública para pacientes do Sistema Único de Saúde que necessitam de procedimentos médicos, os que não forem democraticamente contemplados, teriam que apelar para a providência divina, já engarrafada com a demanda de tantos pedidos. Nem é bom imaginar. Que esta praga fique restrita nos limites da esfera cultural, pelo menos é uma torneira que sempre se abre para atender parte de uma superpopulação de artistas / proponentes pedintes.</p>
<p style="text-align: justify;">O artista, cada vez mais, é um técnico passivo com direito a diploma de bem comportado em preenchimento de formulário, e seu produto relegado ao controle dos burocratas do Estado e aos executivos de marketing das grandes empresas. Se o projeto é bem apresentado com boa justificativa de gastos e retornos, o produto a ser patrocinado ou financiado, mediano, não importa. O que importa é a formatação, a objetividade do orçamento, a clareza das etapas e a visibilidade, o produto final é o acessório do projeto. Claro, existem as exceções.</p>
<p style="text-align: justify;">&#8211;</p>
<p style="text-align: justify;">Cultura e Mercado</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Os 10 melhores poemas de todos os tempos</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Nov 2011 11:29:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ASCOM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos & Afins]]></category>

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		<description><![CDATA[Perguntei a 30 convidados — escritores, críticos, professores, jornalistas — entre obras poéticas conhecidas, quais são os melhores poemas de todos os tempos. Cada participante poderia indicar entre um e dez poemas. Nenhum autor poderia ser citado mais de uma vez. 69 poemas foram indicados, mas destes apenas 23 tiveram mais de três citações. São [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Perguntei a 30 convidados — escritores, críticos, professores, jornalistas — entre obras poéticas conhecidas, quais são os melhores poemas de todos os tempos. Cada participante poderia indicar entre um e dez poemas. Nenhum autor poderia ser citado mais de uma vez. 69 poemas foram indicados, mas destes apenas 23 tiveram mais de três citações. São eles: “O Cão Sem Plumas” e “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto; “Campo de Flores” e “A Máquina do Mundo”, de Carlos Drummond de Andrade; “Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meireles; “Via Láctea”, de Olavo Bilac; “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias; “Romanceiro Gitano”, de Federico García Lorca; “Poema do Fim”, de Marina Tzvietáieva, “Nalgum Lugar em que Nunca Estive”, de e. e. cummings; “Anabase”, de Saint-John Perse; “A Divina Comédia’, de Dante Alighieri; “Funeral Blues”, de W.H. Auden; “O Corvo”, de Edgar Allan Poe; “Terra Desolada”, de T.S. Eliot; “Tabacaria”, de Fernando Pessoa; “Poema Sujo”, de Ferreira Gullar; “Cântico Negro”, de José Régio; “À Espera dos Bárbaros”, de Konstantinos Kaváfis; “E Então, Que Quereis?&#8230;”, de Vladímir Maiakóvski; “Os Estatutos do Homem”, de Thiago de Mello, e “Hugh Selwyn Mauberly”, de Ezra Pound.</p>
<p style="text-align: justify;">Abaixo, a lista em ordem classificatória, baseada no número de citações. Três poetas brasileiros estão na lista: Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar e Thiago de Mello.</p>
<p><strong>1) O Corvo (Edgar Allan Poe) <a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/poemas1.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-17477" title="poemas1" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/poemas1.jpg" alt="" width="200" height="160" /></a><br />
</strong></p>
<p>Numa meia-noite cava, quando, exausto, eu meditava<br />
Nuns estranhos, velhos livros de doutrinas ancestrais<br />
E já quase adormecia, percebi que alguém batia<br />
Num soar que mal se ouvia, leve e lento, em meus portais.<br />
Disse a mim: &#8220;É um visitante que ora bate em meus portais´-<br />
É só isto, e nada mais.&#8221;</p>
<p>Ah! tão claro que eu me lembro! Era um frio e atroz dezembro<br />
E as chamas no chão, morrendo, davam sombras fantasmais,<br />
E eu sonhava logo o alvor e pra acabar com a minha dor<br />
Lia em vão, lembrando o amor desta de dons angelicais<br />
A qual chamam Leonora as legiões angelicais,<br />
Mas que aqui não chamam mais.</p>
<p>E um sussurro triste e langue nas cortinas cor de sangue<br />
Assustou-me com tremores nunca vistos tão reais,<br />
E ao meu peito que batia eu mesmo em pé me repetia:<br />
&#8220;É somente, em noite fria, um visitante aos meus portais<br />
Que, tardio, pede entrada assim batendo aos meus portais.<br />
É só isto, e nada mais.</p>
<p>Neste instante a minha alma fez-se forte e ganhou calma<br />
E &#8220;Senhor&#8221; disse, ou &#8220;Senhora, perdoai se me aguardais,<br />
Que eu já ia adormecendo quando viestes cá batendo,<br />
Tão de leve assim fazendo, assim fazendo em meus portais<br />
Que eu pensei que não ouvira&#8221; &#8211; e abri bem largo os meus portais: -<br />
Treva intensa, e nada mais.</p>
<p>Longamente a noite olhei e estarrecido me encontrei,<br />
E assustado, tive sonhos que ninguém sonhou iguais,<br />
Mas total era o deserto e ser nenhum havia perto<br />
Quando um nome, único e certo, sussurrei entre meus ais -<br />
- &#8220;Leonora&#8221; &#8211; esta palavra &#8211; e o eco a repôs entre meus ais.<br />
E isto é tudo, e nada mais.</p>
<p><strong>Trecho de “O Corvo”, de Edgar Allan Poe.<br />
Tradução de Alexei Bueno.</strong></p>
<p><big><strong>2) A Terra Desolada (T.S. Eliot) <a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/poemas2.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-17478" title="poemas2" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/poemas2.jpg" alt="" width="200" height="160" /></a><br />
</strong></big></p>
<p>Abril é o mais cruel dos meses, germina<br />
Lilases da terra morta, mistura<br />
Memória e desejo, aviva<br />
Agônicas raízes com a chuva da primavera.<br />
O inverno nos agasalhava, envolvendo<br />
A terra em neve deslembrada, nutrindo<br />
Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.<br />
O verão; nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee<br />
Com um aguaceiro. Paramos junto aos pórticos<br />
E ao sol caminhamos pelas aléias de Hofgarten,<br />
Tomamos café, e por uma hora conversamos.<br />
Big gar keine Russin, stamm&#8217; aus Litauen, echt deutsch.<br />
Quando éramos crianças, na casa do arquiduque,<br />
Meu primo, ele convidou-me a passear de trenó.<br />
E eu tive medo. Disse-me ele, Maria,<br />
Maria, agarra-te firme. E encosta abaixo deslizamos.<br />
Nas montanhas, lá, onde livre te sentes.<br />
Leio muito à noite, e viajo para o sul durante o inverno.<br />
Que raízes são essas que se arraigam, que ramos se esgalham<br />
Nessa imundície pedregosa? Filho do homem,<br />
Não podes dizer, ou sequer estimas, porque apenas conheces<br />
Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,<br />
E as árvores mortas já não mais te abrigam,<br />
nem te consola o canto dos grilos,<br />
E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca. Apenas<br />
Uma sombra medra sob esta rocha escarlate.<br />
(Chega-te à sombra desta rocha escarlate),<br />
E vou mostrar-te algo distinto</p>
<p>De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece<br />
Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;<br />
Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.</p>
<p><strong>Trecho de “Terra Desolada”, de T.S. Eliot.<br />
Tradução de Ivan Junqueira.</strong></p>
<p><strong>3) A Máquina do Mundo (Carlos Drummond de Andrade) <a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/poemas3.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-17479" title="poemas3" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/poemas3.jpg" alt="" width="200" height="160" /></a><br />
</strong></p>
<p>E como eu palmilhasse vagamente<br />
uma estrada de Minas, pedregosa,<br />
e no fecho da tarde um sino rouco</p>
<p>se misturasse ao som de meus sapatos<br />
que era pausado e seco; e aves pairassem<br />
no céu de chumbo, e suas formas pretas</p>
<p>lentamente se fossem diluindo<br />
na escuridão maior, vinda dos montes<br />
e de meu próprio ser desenganado,</p>
<p>a máquina do mundo se entreabriu<br />
para quem de a romper já se esquivava<br />
e só de o ter pensado se carpia.</p>
<p>Abriu-se majestosa e circunspecta,<br />
sem emitir um som que fosse impuro<br />
nem um clarão maior que o tolerável</p>
<p>pelas pupilas gastas na inspeção<br />
contínua e dolorosa do deserto,<br />
e pela mente exausta de mentar</p>
<p>toda uma realidade que transcende<br />
a própria imagem sua debuxada<br />
no rosto do mistério, nos abismos.</p>
<p>Abriu-se em calma pura, e convidando<br />
quantos sentidos e intuições restavam<br />
a quem de os ter usado os já perdera</p>
<p>e nem desejaria recobrá-los,<br />
se em vão e para sempre repetimos<br />
os mesmos sem roteiro tristes périplos,</p>
<p>convidando-os a todos, em coorte,<br />
a se aplicarem sobre o pasto inédito<br />
da natureza mítica das coisas.</p>
<p><strong>Trecho de “A Máquina do Mundo”, de Carlos Drummond de Andrade.</strong></p>
<p><strong><strong>4) Tabacaria (Fernando Pessoa) <a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/poemas4.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-17480" title="poemas4" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/poemas4.jpg" alt="" width="200" height="160" /></a><br />
</strong></strong></p>
<p>Não sou nada.<br />
Nunca serei nada.<br />
Não posso querer ser nada.<br />
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.</p>
<p>Janelas do meu quarto,<br />
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.<br />
que ninguém sabe quem é<br />
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),<br />
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,<br />
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,<br />
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,<br />
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,<br />
Com a morte a por umidade nas paredes<br />
e cabelos brancos nos homens,<br />
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.</p>
<p>Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.<br />
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,<br />
E não tivesse mais irmandade com as coisas<br />
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua<br />
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada<br />
De dentro da minha cabeça,<br />
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.</p>
<p>Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.<br />
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo<br />
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,<br />
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.</p>
<p>Falhei em tudo.<br />
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.<br />
A aprendizagem que me deram,<br />
Desci dela pela janela das traseiras da casa.</p>
<p><strong>Trecho de “Tabacaria”, de Fernando Pessoa.</strong></p>
<p><strong><strong>5) Poema Sujo (Ferreira Gullar) <a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/poemas5.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-17481" title="poemas5" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/poemas5.jpg" alt="" width="200" height="160" /></a><br />
</strong></strong></p>
<p>turvo turvo<br />
a turva<br />
mão do sopro<br />
contra o muro<br />
escuro<br />
menos menos</p>
<p>menos que escuro<br />
menos que mole e duro<br />
menos que fosso e muro: menos que furo<br />
escuro<br />
mais que escuro:<br />
claro<br />
como água? como pluma?<br />
claro mais que claro claro: coisa alguma<br />
e tudo<br />
(ou quase)<br />
um bicho que o universo fabrica<br />
e vem sonhando desde as entranhas<br />
azul<br />
era o gato<br />
azul<br />
era o galo<br />
azul<br />
o cavalo<br />
azul<br />
teu cu<br />
tua gengiva igual a tua bocetinha<br />
que parecia sorrir entre as folhas de<br />
banana entre os cheiros de flor<br />
e bosta de porco aberta como<br />
uma boca do corpo<br />
(não como a tua boca de palavras) como uma<br />
entrada para<br />
eu não sabia tu<br />
não sabias<br />
fazer girar a vida<br />
com seu montão de estrelas e oceano<br />
entrando-nos em ti<br />
bela bela<br />
mais que bela<br />
mas como era o nome dela?<br />
Não era Helena nem Vera<br />
nem Nara nem Gabriela<br />
nem Tereza nem Maria<br />
Seu nome seu nome era…<br />
Perdeu-se na carne fria<br />
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia</p>
<p><strong>Trecho de “Poema Sujo”, de Ferreira Gullar.</strong></p>
<p><strong><strong>6) Cântico negro (José Régio) <a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/poemas6.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-17482" title="poemas6" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/poemas6.jpg" alt="" width="200" height="160" /></a><br />
</strong></strong></p>
<p>&#8220;Vem por aqui&#8221; — dizem-me alguns com os olhos doces<br />
Estendendo-me os braços, e seguros<br />
De que seria bom que eu os ouvisse<br />
Quando me dizem: &#8220;vem por aqui!&#8221;<br />
Eu olho-os com olhos lassos,<br />
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)<br />
E cruzo os braços,<br />
E nunca vou por ali&#8230;<br />
A minha glória é esta:<br />
Criar desumanidades!<br />
Não acompanhar ninguém.<br />
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade<br />
Com que rasguei o ventre à minha mãe<br />
Não, não vou por aí! Só vou por onde<br />
Me levam meus próprios passos&#8230;<br />
Se ao que busco saber nenhum de vós responde<br />
Por que me repetis: &#8220;vem por aqui!&#8221;?</p>
<p>Prefiro escorregar nos becos lamacentos,<br />
Redemoinhar aos ventos,<br />
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,<br />
A ir por aí&#8230;<br />
Se vim ao mundo, foi<br />
Só para desflorar florestas virgens,<br />
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!<br />
O mais que faço não vale nada.</p>
<p>Como, pois, sereis vós<br />
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem<br />
Para eu derrubar os meus obstáculos?&#8230;<br />
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,<br />
E vós amais o que é fácil!<br />
Eu amo o Longe e a Miragem,<br />
Amo os abismos, as torrentes, os desertos&#8230;</p>
<p><strong>Trecho de “Cântico Negro”, de José Régio.</strong></p>
<p><strong><strong>7) À Espera dos Bárbaros (Konstantinos Kaváfis) <a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/poemas7.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-17483" title="poemas7" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/poemas7.jpg" alt="" width="200" height="160" /></a><br />
</strong></strong></p>
<p>O que esperamos na ágora reunidos?</p>
<p>É que os bárbaros chegam hoje.</p>
<p>Por que tanta apatia no senado?<br />
Os senadores não legislam mais?</p>
<p>É que os bárbaros chegam hoje.<br />
Que leis hão de fazer os senadores?<br />
Os bárbaros que chegam as farão.</p>
<p>Por que o imperador se ergueu tão cedo<br />
e de coroa solene se assentou<br />
em seu trono, à porta magna da cidade?</p>
<p>É que os bárbaros chegam hoje.<br />
O nosso imperador conta saudar<br />
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe<br />
um pergaminho no qual estão escritos<br />
muitos nomes e títulos.</p>
<p>Por que hoje os dois cônsules e os pretores<br />
usam togas de púrpura, bordadas,<br />
e pulseiras com grandes ametistas<br />
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?<br />
Por que hoje empunham bastões tão preciosos<br />
de ouro e prata finamente cravejados?</p>
<p>É que os bárbaros chegam hoje,<br />
tais coisas os deslumbram.</p>
<p>Por que não vêm os dignos oradores<br />
derramar o seu verbo como sempre?</p>
<p><strong>Trecho de “À Espera dos Bárbaros”, de Konstantinos Kaváfis.<br />
Tradução José Paulo Paes.</strong></p>
<p><strong><strong> <img src='http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-includes/images/smilies/icon_cool.gif' alt='8)' class='wp-smiley' /> E Então, Que Quereis?&#8230; (Maiakóvski) <a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/poemas8.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-17484" title="poemas8" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/poemas8.jpg" alt="" width="200" height="160" /></a><br />
</strong></strong></p>
<p>Fiz ranger as folhas de jornal<br />
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.<br />
E logo<br />
de cada fronteira distante<br />
subiu um cheiro de pólvora<br />
perseguindo-me até em casa.<br />
Nestes últimos vinte anos<br />
nada de novo há<br />
no rugir das tempestades.</p>
<p>Não estamos alegres,<br />
é certo,<br />
mas também por que razão<br />
haveríamos de ficar tristes?<br />
O mar da história<br />
é agitado.<br />
As ameaças<br />
e as guerras<br />
havemos de atravessá-las,<br />
rompê-las ao meio,<br />
cortando-as<br />
como uma quilha corta<br />
as ondas.</p>
<p><strong>Trecho de “E Então, Que Quereis?&#8230;”, de Maiakóvski.<br />
Tradução de E. Carrera Guerra.</strong></p>
<p><strong><strong>9) Os Estatutos do Homem (Thiago de Mello) <a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/poemas9.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-17485" title="poemas9" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/poemas9.jpg" alt="" width="200" height="160" /></a><br />
</strong></strong></p>
<p>Artigo I<br />
Fica decretado que agora vale a verdade.<br />
agora vale a vida,<br />
e de mãos dadas,<br />
marcharemos todos pela vida verdadeira.</p>
<p>Artigo II<br />
Fica decretado que todos os dias da semana,<br />
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,<br />
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.</p>
<p>Artigo III<br />
Fica decretado que, a partir deste instante,<br />
haverá girassóis em todas as janelas,<br />
que os girassóis terão direito</p>
<p>a abrir-se dentro da sombra;<br />
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,<br />
abertas para o verde onde cresce a esperança.</p>
<p>Artigo IV<br />
Fica decretado que o homem<br />
não precisará nunca mais<br />
duvidar do homem.<br />
Que o homem confiará no homem<br />
como a palmeira confia no vento,<br />
como o vento confia no ar,<br />
como o ar confia no campo azul do céu.</p>
<p><strong>Trecho de “Os Estatutos do Homem”, de Thiago de Mello.</strong></p>
<p><big><strong>10) Hugh Selwyn Mauberly (Ezra Pound) <a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/poemas10.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-17486" title="poemas10" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/poemas10.jpg" alt="" width="200" height="160" /></a><br />
</strong></big></p>
<p>Vai, livro natimudo,<br />
E diz a ela<br />
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:<br />
Houvesse em nós<br />
Mais canção, menos temas,<br />
Então se acabariam minhas penas,<br />
Meus defeitos sanados em poemas<br />
Para fazê-la eterna em minha voz<br />
Diz a ela que espalha</p>
<p>Tais tesouros no ar,<br />
Sem querer nada mais além de dar<br />
Vida ao momento,<br />
Que eu lhes ordenaria: vivam,<br />
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,<br />
Rubribordadas de ouro, só<br />
Uma substância e cor<br />
Desafiando o tempo.</p>
<p>Diz a ela que vai<br />
Com a canção nos lábios<br />
Mas não canta a canção e ignora</p>
<p>Quem a fez, que talvez uma outra boca<br />
Tão bela quanto a dela<br />
Em novas eras há de ter aos pés<br />
Os que a adoram agora,<br />
Quando os nossos dois pós<br />
Com o de Waller se deponham, mudos,<br />
No olvido que refina a todos nós,<br />
Até que a mutação apague tudo<br />
Salvo a Beleza, a sós.</p>
<p><strong>Trecho de “Hugh Selwyn Mauberly”, de Ezra Pound.<br />
Tradução de A. de Campos.</strong></p>
<p><strong>&#8211;</strong></p>
<p>Jornal Opção</p>
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		<item>
		<title>Dança: Para quem? Para quê? Por quê?</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Nov 2011 12:19:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>ASCOM</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos & Afins]]></category>

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		<description><![CDATA[Há muito se tem discutido sobre a falta de público para a dança contemporânea. Porque as propostas estéticas e reflexivas dos atuais espetáculos não conseguem seduzir o cidadão comum a ponto de fazê-lo sair de casa e ir ao teatro?
Longe de ser um artigo acadêmico, pois esta é uma simples reflexão pautada em 33 anos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Há muito se tem discutido sobre a falta de público para a dança contemporânea. Porque as propostas estéticas e reflexivas dos atuais espetáculos não conseguem seduzir o cidadão comum a ponto de fazê-lo sair de casa e ir ao teatro?</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/2091189669_b1f2c44f4b_m.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-17405" title="2091189669_b1f2c44f4b_m" src="http://www.cidadedosaber.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/11/2091189669_b1f2c44f4b_m.jpg" alt="" width="238" height="240" /></a>Longe de ser um artigo acadêmico, pois esta é uma simples reflexão pautada em 33 anos de militância artística, acredito que esta situação foi criada e é alimentada por nós, explico:</p>
<p style="text-align: justify;">As ferramentas ou signos usados na construção de um trabalho coreográfico são, muitas vezes, de difícil acesso a quem nunca viu dança contemporânea. O artista passou a ignorar o público e declarar, talvez influenciado pelo discurso de pesquisadores e acadêmicos, que dança de pesquisa ou de experimentação não se atrela às grandes plateias por um motivo básico: o público comum está a anos luz de compreender a vanguarda. Será?</p>
<p style="text-align: justify;">Quantas e quantas vezes ouvimos de companheiros nossos: “Tem pouca gente assistindo porque é de difícil entendimento para eles”, “o público precisa conhecer os códigos adequadas para apreciar a dança contemporânea”, “meu espetáculo é para pouco público mesmo, e  por aí vai…</p>
<p style="text-align: justify;">Também se tornou comum ouvir: “Espetáculo em processo de construção”. Para nós do meio tudo bem, mas e o público leigo?</p>
<p style="text-align: justify;">Quase sempre não é informado do que vai ver e quando o coitado do desavisado aparece no teatro, meu Deus!!! Sai desta dura experiência jurando nunca mais assistir a um espetáculo de dança contemporânea, quer dizer, apenas “dança dos famosos” ou coisa parecida.</p>
<p style="text-align: justify;">Outro fato que considero determinante é o distanciamento do drama, da lágrima e da emoção.</p>
<p style="text-align: justify;">Quase tudo se tornou hermético demais. Ao publicou restou o incomodo de ser um boneco acomodado na poltrona do teatro sentindo-se um idiota por não compreender o que está ali bem à sua frente.</p>
<p style="text-align: justify;">A insistência em um discurso arrogante, no qual se acreditava que só havia vida pensante dentro dos seus próprios domínios, foi tanto que a dança acabou construindo sua própria armadilha e se aprisionou nela mesma. Não percebeu que se tornou egóica, solista de sua própria coreografia, voyer de si mesma. E o público se sentiu alijado deste universo criativo.</p>
<p style="text-align: justify;">Talvez por conta disso, a dança foi perdendo o pouco espaço que tinha na imprensa e consequentemente não houve renovação de profissionais qualificados nesta área, pelo contrário, esta profissão está em vias de extinção. A crítica, salvo algumas exceções, desapareceu dos veículos de comunicação e, o que poderia ser um bom combustível para impulsionar as produções, faz parte do passado.</p>
<p style="text-align: justify;">Penso que ainda o artista esteja mais preocupado com a sua labuta que aqui poderia também chamar de “umbigo” do que propriamente na formação do seu público. Se o artista materializa o desejo de expressar-se em sua obra é essencial investir na difusão de suas produções e é preciso ter para quem comunicá-las!</p>
<p style="text-align: justify;">Não cabe mais não pensar na formação de público, não cabe mais não investir em planos de ação e numa assessoria de imprensa que trabalhe e compactue com o ele. Acredito ainda que quem não puder arcar com este ônus será obrigado a se organizar coletivamente para fazer frente às necessidades centrais de produção e divulgação, porque não?</p>
<p style="text-align: justify;">A nós não há outro caminho, a não ser o que nos leve de fato ao coletivo.</p>
<p style="text-align: justify;">O artista não deve abrir concessões ao modelo mercadológico atual, mas deve sim, e é urgente, reconquistar as plateias que desejam ter suas almas tocadas. E, a dança pode fazer isso, temos belos exemplos: Pina Bauch, Kazuo Ohno, Denilto Gomes, Umberto Silva, Marilena Ansaldi, entre tantos outros grandes artistas da dança ligados à vanguarda e a emoção.<br />
<em>Sandro Borelli é presidente da Cooperativa Paulista de Dança. Diretor artístico da Cia. Borelli de Dança, foi o vencedor do 2º Prêmio BRAVO! Prime de Cultura em 2006 e tem cinco prêmios da A.P.C.A. (Associação Paulista dos Críticos de Arte). Acaba de lançar a revista de dança “<a href="http://www.murroempontadefaca.com.br/" target="_blank"><strong>MURRO EM PONTA DE FACA</strong></a>”.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8211;</em></p>
<p style="text-align: justify;">Sandro Borelli/ Cultura e Mercado</p>
]]></content:encoded>
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